TIMOR
LESTE: UMA CULTURA OPRIMIDA E AMEAÇADA
Heinz Dressel
"O mundo não sabe de nada. Timor é um caso
de desconhecimento mundial exatamente como foram os campos de
concentração na época da guerra. Depois,
todos se chocaram, mas já era tarde."
(Dom
Carlos F. Ximenes Belo)
Sinto
uma imensa dor, quando meus pensamentos se dirigem à parte
oriental daquela ilha remota que os avegadores portugueses chamaram
de Timor. É por essa dor que não me posso calar,
lembro-me com profunda tristeza daquela gente humilde de Dili,
Liquiça e Maubara; nunca a posso esquecer.
Em
seu tão simpático opúsculo - Cartas de um
Comandante no Extremo Oriente- o Vice-Almirante português
Pedro Fragoso de Matos deixa-nos participar em suas viagens que
o levaram até a "maravilhosa, mas muito abandonada
ilha de Timor, verdadeiras terras do fim-do-mundo" - como
ele escreve no dia 20 de Julho de 1962, "terra onde os portugueses,
apesar de tão pouco terem feito por ela, parecem estar
na alma do povo." (editado em 1987 em Macau). Com as cartas
do Vice-Almirante na cabeça e com as observações
de Gilberto Freyre sobre "0 Luso e o Trópico"
(editado em 1961 em Lisboa) no coração, em meados
do de Feveireiro do ano 1991, tomei um avião das Aerolinhas
Indonésias Garuda de Surabaya via Denpasar e Kupang para
Dili, velha capital da província portuguesa de Timor, e,
hoje, a mais recente (27.) província da Indonésia
chamada Timor Timur. Como pessoa que há quase quatro décadas
havia descoberto a civilização luso-tropi cal no
Brasil e uns vinte anos mais tarde também na África,
principalmente em Angola, cheguei à ilha de Timor com aquele
grande "eros" científico do pesquisador quando
ele enfrenta novas terras, e para mim essa parte pequena da civilização
luso tropical no fim do continente asiático de fato significava
território desconhecido, novas terras lusotropicais. E
que alegria quando na entrada do hotel a comunicação
em inglês foi substituida logo pela língua da Lusitânia
(que nos últimos decênios substituiu o Tetún,
a língua franca de então).
A
viagem que me levou à cidade de Dili não foi um
evento turístico, senão uma viagem de informação
recomendada pelo Conselho das Igrejas Protestantes da Indonésia
- DGI, da qual havia partido a recomendação de estabelecermos
um contato com a Universidade de Timor, com a qual a tradicional
universidade parceira da Obra Ecumênica de Estudos a Universitas
Kristen Satya Wacana em Salatiga há alguns anos manteve
laços de colaboração. A Igreja Protestante
de Java inclusive mantinha um programa de desenvolvimento rural
no distrito de Liquiça/ Maubara, onde também tive
oportunidade de passar.
O
arquipélago de Timor encontra-se sob forte influência
portuguesa pelo menos desde o ano de 1514. 0 que mais atraíu
os velhos navegadores naquela região foi a madeira cheirosa
- sandal wood - que se encontrava de maneira maciça na
ilha. Os exploradores não deixaram quase nada daquela riqueza.
Desde o dia 17 de Julho de 1976 a parte oriental da ilha de Timor
faz parte da República da Indonésia, que desde a
derrota dos japoneses e holandeses pelos indonésios - através
de constantes reivindicações - reclama os territórios
da Oceania ainda ocupados por nações européias
(apesar de que na década de 60 o governo da Indonésia
no seu território apoiava um Comité de Libertação
de Timor-Leste, composto por exilados timorenses).
Quando
no começo dos anos de 60 se formaram os mais diversos movimentos
de libertação da Angola, Guinéa- Bissau e
Moçambique, também no extremo oriente se formou
o Comitê de Libertação de Timor Leste, organizado
por políticos exilados, que contaram com o apoio da Indonésia,
cujo território aqueles lutadores pela independência
haviam escolhido como base de ação. Como sempre
acontece, os grupos que lutaram por um Timor livre se diversificaram,
e, posto em termos bastante globais, surgiram três alas:
a FRETELIN - Frente Revolucionária de Timor Leste Independente
(de orientação marxista- leninista, que lutava por
uma imediata independência), a UDT - União Democrática
Timorense - (nos primeiros tempos de orientação
lusófila e defendendo a independência num contexto
"federativo", mas depois do golpe estourado em consequência
da "revolução dos cravos", transformou-se
em movimento com bastante simpatias pro-Jakarta), e, aínda,
a APODETI - Associação Popular Democrática
Timorense - (desde o início claramente de orientação
pro- Indonésia). Em 1975 a alternativa era ou independência
ou integração. A constelação política
indicou o caminho à integração.
Depois
da queda do Presidente Spínola em setembro de 1974 na metrópole
em Portugal estourou uma guerra entre irmãos na provincia
de Timor, começando com um surpreendente golpe armado da
UDT, cujos comandos assaltaram os quartéis dos portugueses
e outros lugares estratégicos. Hoje se sabe que tudo isso
foi bem coordenado com Jakarta. Formou- se um governo provisório.
Em 26 de Agosto de 1975 por ordem de Lisboa os portugueses - inclusive
o governador Lemos Pires e muitos militares - abandonaram a cidade
de Dili, deixando milhares de armas nas mãos dos rebeldes,
e refugiando-se na ilhota de Ataúro. Os grupos políticos
timorenses envolveram-se numa carnificina inédita. A luta
fratricída castigava as populações com atos
de brutalidade jamais conhecidos. Morreu muita gente - 1.500 dizem
fontes portuguesas - em primeiro lugar pessoas indefesas, mulheres
e crianças. Timor tornou-se uma colônia desprezada,
deixada numa situação revoltante, com situações
que simplesmente repetiam certos acontecimentos que pouco antes
haviam-se registrados em Angola. A fome grassava com violência
em todo o território e mais de 47.000 timorenses pediam
alimentos e proteção junto da fronteira à
Indonésia, de onde os primeiros soldados indonésios
entraram em Timor Leste no dia 7. de dezembro de 1975. A partir
daí soldados indonésios - com o mesmo rigor que
haviam aplicado no massacre de seus irmãos "comunistas"
anos atrás - massacraram populações inteiras
para humilhar o orgulho do povo maubere.
A
FRETELIN também cometeu atos severos, inclusive enterraram
vivos compatriotas seus de outros partidos. Foi a FRETELIN que
no dia de 28 de novembro de 1975 em Dili havia declarado unilateralmente
a independência e proclamado a República Democrática
de Timor Leste, como conta José Ramos Horta, que foi nomeado
chefe da pasta de assuntos exteriores com seus 25 anos de idade.
Num clima de guerra fria os indonésios não esperavam
muito para exterminar a "ameaça comunista" da
gente da FRETELIN colada diretamente ao território Timor-Kupang.
Da
parte do Governo Provisório instalado pelos ocupantes logo
houve uma resolução na "Assembleia Popular"
que previa a integração de Timor na Indonésia,
solução reconhecida depois pelo Presidente Eanes
em 27 de julho de 1976. A anexão oficial de Timor Leste
pelo governo Suharto tomou lugar em 17 de julho de 1976.
Quando
depois entraram as tropas indonésias e se desenvolvia o
movimento de guerrilha incentivada pela FRETELIN, a situação
do povo angustiado, que das vilas se refugiava nas montanhas,
onde a força aérea bombardeava regiões inteiras
à moda americana no Vietnã, erradicando vilas inteiras,
tornou-se potencialmente mais séria que aquela bem conhecida
pelo genocídio do regime Pol Pot em Campuchea, morreu mais
gente. Dizem que entre 1977 e 1979 eliminaram uma terça
parte da população. Fontes católicas mencionam
200.000 mortes causadas pelo confronto das forças militares
indonésias com a resistência e guerrilha timorense,
mas principalmente causadas pela brutalidade dos métodos
utilizados pelas tropas indonésias, com recurso a barreiras
humanas da população civil por eles aplicados para
proteger o seu avanço no interior; havia torturas, violações,
prisões arbitrárias, desaparecimentos, e todo o
tipo de violências sobre homens, mulheres e crianças.
Milhares de pessoas morreram, se não pela guerra e crueldade
dos combatentes, então pela fome e doença. Moisés
Amaral, então líder da UDT, fala de 300.000 "mortos
ou desaparecidos", enquanto Amnesty Internacional menciona
350.000.
0
último censo em Timor Leste, que no ano de 1974 foi ordenado
pelos portugueses, indicou um total de 653.211 pessoas. Um censo
ordenado pelo governo indonésio em 1980 indicou um número
total de 555.350 pessoas; um cálculo oficial de 1990 indica
718.262 habitantes, partindo de um índice de crescimento
de mais ou menos 2,5%. A memória do povo, como se sabe,
é curta. Mas os arquivos guardam os fatos da história
e a matemática não se deixa manipular, e no fim
a lógica coloca as coisas no lugar. Essa lógica
em termos demográficos indica entre os anos 1974 e 1980
uma diferença de 97.861 pessoas: Deve ser este o numero
das vítimas inocentes daquelas perturbações
que surgiram nos primeiros anos depois da "integração"
de Timor Leste. Pela justiça essas coisas não devem
ser esquecidas, porque fazem parte da história e, de maneira
toda especial, da história do povo timorense. Nos anos
1983 e 1984 fomos chocados por informações assustadoras
sobre incidentes violentos e ações marciais em Timor
Leste. Nem sempre as crueldades provinham das tropas ocupantes
(ABRE). Em 1984 o próprio Dom Carlos queixou-se repetidamente
das brutalidades da FRETELIN ou FALINTIL - Forças Armadas
de Libertação Nacional de Timor-Leste. Naquele período
inclusive aconteceu, que a Igreja Católica Romana de repente
encontrou-se como vítima inocente entre as pedras de moinho.
Tudo isso parecia ter acabado com a visita do Papa João
Paulo II "a Indonésia e a Diocese de Dili" -
como diplomaticamente se dizia no Vaticâno - em agosto de
1989, visita aliás, que, como tudo indicava, sancionou
a ocupação de Timor. Observou-se com desgosto que
o ilustre visitante não havia beijado o chão do
arqipélago, gesto que ele costumava aplicar sempre ao entrar
num país soberano. Já que o chefe supremo da Igreja
Católica- Romana não denunciou a invasão,
porque haverá o mundo de se preocupar mais com Timor Leste?
Também nas gavetas da ONU em Nova Iorque o caso de Timor
Leste se tornou esquecido pela memória das nações.
E aí nos encontramos em frente ao fato consumado "Roma
locuta - causa finita". Será? Sem dúvida o
Vice-Almirante português Pedro Fragoso de Matos tem plena
razão quando, em suas cartas de um comandante no extremo
oriente, com bastante sentido autocrítico, caracteriza
Timor como uma terra onde os portugueses pouco tem feito pelo
povo. Certamente, porém, eles se comportaram de maneira
menos racista que por exemplo os franceses ou os ingleses em suas
possessões ultra-marinas, mas com respeito à educação
do povo ficaram terrivelmente atrasados em comparação
aos outros. Tanto mais se sente hoje a falta de intelectuais timorenses.
Dos pouquíssimos que tinha, muitos desapareceram de uma
ou outra maneira no percorrer da descolonização
sangrenta e da severa opressão do novo colonizador - apesar
do "plano oficial de desenvolvimento" aplicado pelas
autoridades, visando "melhorar a inteligência da população
inteira de Timor- Timur" (para citar aqui a linguagem bastante
hipócrita dos tecnocratas em Jakarta).
A
pequena Universidade de Timor - UNTIM - em 1991 mantinha três
faculdades: Ciências Agrícolas, com 108 estudantes;
Treinamento de Professores e de Pedagogia, com 118 estudantes,
e Ciências Sócio-Políticas com 206 estudantes.
A estatística de 1990 indicava o número total de
436 estudantes. O reitor, um Jesuíta da ilha de Java -
há tempo substituído - mostrou bastante simpatia
pela cultura timorense.
Observando
as boas tradições lusitanas, considerei prioritário
o compromisso de honrar o bispo católico da diocese de
Dili, Dom Carlos Felipe Ximenes Belo com uma visita de cortesia,
acompanhado por um bom diálogo sobre a situação
do povo e da igreja, sublinhando a solidariedade dos cristãos
no estrangeiro para com os irmãos timorenses. Tive também
a oportunidade de visitar a Secretaria da "Igreja Cristã
de Timor Leste," dirigida por Pdt. Muster Hutajulu, um metodista
da terra dos Batak em Sumatra. A comunidade evangélica
na ilha representava apenas um grupo bastante minoritário.
Na região de Dili havia uns 5.000 membros, em todo território
timorense esta igreja contava com 24.000 membros, 3.300 deles
provindo "de outros lugares", quer dizer que foram transferidos
de diversas ilhas indonésias dentro do programa governamental
de "transmigrasi". A dominância dos indonésios
nas comunidades evangélicas timorenses explica a atitude
nacionalista de seus líderes. É com pavor que me
lembro do encontro com a Secretaría da "Christian
Church in East Timor", pavor devido à total ignorância
da parte dos representantes protestantes no escritório
central de Dili junto à situação muito específica
da população. Experimentei de forma viva o que achei
que já pertencia a história: a arrogância
do colonialismo. Fiquei sabendo que 45 jovens, provindos das diversas
comunidades espalhadas nas províncias, estudaram em Ambon,
Manado, Kupang, Yogyakarta e Jakarta, onde alguns deles se dedicaram
à Teologia, enquanto outros estudaram Direito, Engenharia,
Medicina, Administração de Empresas, Agricultura
ou Eletrônica.
Me
dei conta: Uma vez graduados, estes jovens precisam continuar
seus estudos para conseguir alguma especialização
fora do país, e isso significa que têm que aprender
a língua inglesa, algo meio difícil para muitos
indonésios. Já por isso em Timor se recomendaria
cultivar o fundo que existe junto à língua portuguesa,
uma língua que se fala fora de Portugal e do Brasil também
nos países que, desde a "revolução dos
cravos" se tornaram nações independentes, como
Angola e Moçambique, ou Guinéa-Bissau. E desta maneira
calcula-se que mais que 200 milhões de pessoas, atualmente
falam esta velha língua cultural européia (que inclusive
com a criação da comunidade européia entrou
na lista das línguas oficiais européias, com tradução
simultânea em reuniões dos países europeus,
assim garantindo acesso não somente ao setor econômico,
mas ao mundo científico.)
Quero
destacar a gentileza do então senhor governador da província
Timor Timur, engenheiro Mário Viegas Carrascalao, que -
muito ao contrário do vice-governador indonésio
(que comprovou uma observação feita pelo governador:
"quando aparece um time de investigação para
consultar oficiais governamentais, eles sempre se negam de recebê-los,
alegando estar sobrecarregado de serviços") - fiel
à tradicional hospitalidade timorense, imediatamente se
colocou à disposição para uma entrevista.
Merece ser destacado também, que durante esta visita de
cortesia serviu como veículo de comunicação
a língua portuguesa, que nessas ocasiões garante
muito mais intimidade do que o inglês, que pelas suas origens
mesmo não alcança aquele calor tropical que faz
parte do vernáculo lusitano.
Em
quase todas as conversações oficiais - também
com Dom Carlos - tocou-se em aspectos da situação
da população, especialmente no que se refere aos
problemas da identidade cultural, questões da educação
e aspectos da participação de distintos grupos,
já que, por exemplo, em Timor Leste há 23 grupos,
étnicos, entre os quais, se aplica 36 dialetos diferentes.
Durante
a minha estada em Dili pude observar que depois de mais que dez
anos de repressão sangrenta do nacionalismo de Timor Leste
e de uma história fúnebre e bárbara inédita,
e, como consequência da quase total eliminação
do ramo militar de FRETELIN, infelizmente, continua uma agressiva
política da integração cultural, controlada
pelo serviço de segurança militar (e bem me lembro
de um tipo PIDE indonésio, que de maneira bastante estúpida
mostrava abertamente seu interesse por minha presença em
Dili). Está ocorrendo a violação contínua
dos Direitos Humanos. O povo responde de sua maneira. A liberdade
de expressão não existe, mas sempre há um
caminho, tem que ter uma válvula de escape, senão
a sobrevivência estaria em jogo. Refiro-me a um símbolo,
símbolo duplo, para os ocupantes e para os oprimidos: o
monumento dedicado à integração de Timor
Leste na República de Indonésia em pleno centro
de Dili. Trata-se de uma das estátuas triunfalistas que
bem conhecemos de nossas visitas em Jakarta: Um herói com
uma bandeira na mão esquerda, que quebrou as correntes
que o prendiam na mão direita, gritando de alegria pela
liberdade que ganhou ... No piso tem uma pláca de mármore
tratando do evento da "integrasi". Quando vi estava
demolida, quebrada pela ira dos oprimidos por um colonizador que
além de centenas de perseguidos por motivos políticos,
permanentemente produz presos, torturados e mortos. Conforme um
artigo que na ocasião de minha viagem encontrei na "Jakarta
Post" até o próprio governador Mario Viegas
Carrascalao defendia um "territorial approach" em vez
do lamentável "security approach" através
das unidades militares (ABRE). Logo depois de minha visita à
ilha remota havia novos exemplos do "security approach":
No dia 12 de novembro de 1991 - surgiu o "massacre de Dili".
Segundo o relatório oficial da Comissão Nacional
de Inquérito do governo da Indonésia (que classificou
o massacre como "catástrofe"), os incidentes
podiam ter sido assim: Tomou lugar na Igreja Motael em Dili uma
Missa Comemorativa para Sebastião Gomes, morto numa briga
entre jovens pro e contra a integração há
um ano. Após essa missa muitos jovens e adultos destinaram-se
ao Cemitério Santa Cruz a fim de visitar o túmulo
de Sebastião. O eventotornou-se numa demonstração
de simpatia para FRETELIN. Participantes do ato apedrejaram os
soldados que haviam chegado. Alega- se que foram pessoas civis
que de repente abriram o fogo, e depois também os militares
começaram a atirar. Pelo menos 50 pessoas cairam sob as
balas das tropas, mais 91 feridos. (Testemunhas locais falam de
pelo menos 100 mortos - e depois de outras dezenas de pessoas
executadas.) São estes talvez os que - conforme o relatório
oficial - "fugiram e desapareceram" depois dos incidentes.
(Observadores de Grupos de Defesa dos Direitos Humanos falaram
de 273 mortos, mais 255 desaparecidos e 376 feridos). A identificação
dos mortos pelos familiares foi interditda pelos militares. Não
se conhece o lugar onde se enterrou coletivamente os cadáveres.
Comparando o relatório oficial com o filme documentario
"Cold Blood" de Max Stahl, a gente tem suficientemente
elementos para formar sua própria opinião. Acontece
que o próprio governador Ir. Mário Viegas Carrascalao
foi uma das testemunhas dos acontecimentos, ele até filmou
certas cenas do drama da janela do palácio. Não
popou com seu protesto. Jakarta ordenou a exoneração
do geneal comandande e aplicou castigos para outros quatro officiais
e oito soldados por "atos incompatíveis com a ética
e disciplina militar". Foram acusados também 37 timorenses.
Em 12 de novembro de 1994, quando se completaram três anos
depois do massacre de Santa Cruz surgiram novos protestos em Dili.
E assím por diante ...
A
população timorense encontra-se desde a segunda
década do século XVI (1514) sob influência
portuguesa, influência que se tornou cada vez mais profunda.
"É um povo que quer manter vivas uma fé que
foi a nossa e uma cultura em que ainda nos reconhecemos e que
é, pela força bruta, impedido de o fazer,"
observou Carlos de Almeida Sampaio no Diário de Notícias
(16.3.92). O catolicismo é uma das caraterísticas
fundamentais da cultura timorense. Hoje em dia pelo menos 90%
do povo são católicos. Os anúncios na antiga
igreja e no salão paroquial de Dili são escrítos
em língua portuguesa que se tornou língua franca
no território. Revelou-se um "portuguesismo"
claro durante a minha estadia na ilhota, um sentimento de grande
respeito por Portugal, mesmo tantos anos depois, e imagino que
esta "portugalidade" exige mais do que apenas uma certa
tolerância junto às suas tradições
culturais.
Conhecemos
os efeitos da dominação portuguesa, por exemplo,
nos setores culturais e religiosos, e com relação
à língua do exemplo brasileiro e angolano. Foi o
Dr. Gilberto Freyre que em vários livros chamou a atenção
àquela civilização luso-tropical, que se
desenvolveu durante os séculos devido à contínua
presença do elemento português nos respectivos territórios,
deixando de propó sito de lado todas as considerações
políticas.
Parece-me
que as razões sócio-culturais, etnológicas
e históricas exigem que apoiemos o povo timorense junto
às suas aspirações no sentido de uma verdadeira
autonomia cultural-religiosa, e até a possibilidade de
aplicar o vernáculo tradicional de comunicação
entre as etnias. Não pode ser crime falar "a língua
que a mãe ensinou para a gente". Não pode ser
negativo o conhecimento e a aplicação duma língua
cultural européia ou qualquer outra língua que não
separa, mas que une os povos. Repito que tenho muitos amigos na
Indonésia. Sem dúvida cada cidadão da República
deve superar a "Bahasa Indonesia" como meio de comunicação
entre o pessoal das mais diversas ilhas de que consiste esta grande
nação. Mas que ao timorense também seja concedido
incondicionalmente, o direito de falar o português que a
mãe ensinou: como meus amigos na lagoa Toba em Sumatra
falam a língua da mãe, que é a língua
dos Batak, e outros que em casa falam o dialeto de Cánton
... Dizem que Timor Leste não teria condições
de autonomia econômica para se tornar nação
autônoma e independente, posição aliás,
que sempre defendia o governo de Portugal. Timor não dispõe
de riquezas naturais. Tem umas plantações de café,
mas não há minerais, antes de tudo parece que na
ilhota não há petróleo. Tampouco existe a
necessária unidade entre as 23 etnias (antigamente organizadas
em pequenos reinados) que vivem no território de Timor
Leste.
Não
se trata de uma "nação", apesar de que
a coletividade das etnias de Timor seja uma entidade "política"
muito anterior a da Indonésia; mas para formarem uma nação,
falta o que os indonésios possuem com a sua filosofía
de estado, a "Pancassila". Está claro que não
foi do interesse dos portugueses nem dos indonésios de
contribuir para que pudesse surgir uma consciência nacional
da gente de Timor Leste. Os donos de colônias sempre seguiram
a regra romana 'divide et impera'. E agora temos a situação
bem clara, a anexão e incorporação da velha
província ultra-marina portuguesa de Timor Leste na união
nacional da República de Indonésia, um processo
quase irreversível. Cada apoio, e seja apenas um apoio
retórico de qualquer tipo e resistência física
deve ser rejeitado com toda veemência moral e intelectual,
estigmatizado como loucura política e um crime comum, porque
significaria uma ameaça à paz e ao bem estar do
povo, aumentando os já seculares sofrimentos de uma população
tão benevolente e pacífica como aquela simpática
gente timorense. A resistência militante acabou com a prisão
de José Alexandre Xanana Gusmão, jornalista e poeta,
que passou a vida lutando nas montanhas e lidera há 20
anos o movimento guerrilheiro (novembro de 1992). Meio ano depois
capturaram seu substituto Má Huno. Ficaram umas poucas
centenas de guerrilheiros sem orientação.
Na
década de 80 houve várias propostas visando a pacificação
da ilha, e surgiram planos bastante concretos, mas no momento
parece que todo mundo tem pena dos timorenses, mas ninguém
se encarrega deles com seriedade. Durante longos anos Portugal
assumiu a posição clara de que nada fazia para a
integração mas que também nada fazia para
opor-se a mesma. Considerou a questão Timor "um ciclo
da história portuguesa definitivamente encerrado".
Ainda em 1988 seu ministro dos negócios extrangeiras afirmou
que Portugal não tinha reivindicações a fazer
sobre o território.
É
bom lembrar que o Parlamento Europeu condenou a invasão
permanente de Timor Leste pelas tropas da Indonésia como
um ato "totalmente contrário ao Direito Internacional",
exigindo por isso o cumprimento das várias resoluções
do Conselho de Segurança da ONU que visam a "retirada
das forças militares indonésias de ocupação
de Timor Leste". Houve até a proposta de um referendo
livre sob a proteção da ONU apontando a solução
do conflito produtor de gravíssimas violações
dos Direitos do Homem, plano apresentado pelo CNRM - Conselho
Nacional da Resistência Maubere - liderado por Xanana Gusmao,
um plano de pacificacão prevendo três etapas: negociações
entre os pares que são os próprios timorenses, Portugal,
Indonésia e representantes da ONU; eleição
de uma Assembléia Timorensis, retirada das tropas indonésias
bem como a diminuição da parte civil indonésia
no território; referendum sob a proteção
da ONU.
Também
é bom lembrar que as reivindicações da República
da Indonésia já provêm dos anos de 40, década
em que meus amigos indonésios de Sumatra e de Java se preparavam
para assumir a responsabilidade depois da queda dos holandeses,
e depois que os japoneses foram expulsos definitivamente. Temo
que a "integração" de Timor Leste na República
de Indonésia para os indonésios seja irreversível,
gostemos ou não. Não posso crer que eles nesta altura
ainda se prontifiquem de "obedecer às decisões
da comunidade internacional". É bem provável
de que eles considerem qualquer diálogo sobre "Timor-Timur"
mera perda de tempo, já que a "integraci" é
fato consumido. Parece, porém, que a concessão do
Prémio Nobel da Paz a dois timorenses, o bispo Dom Carlos
Felipe Ximenes Belo e o líder da resistência timorense
no exterior, José Ramos Horta, em 1996, indica uma mudança
de atitude da comunidade internacional junto à questão
Timor Leste, uma mudança de atidude dos grêmios internacionais,
que já há algum tempo haviam retomado diálogos
e negociações junto ao problema. Butros B. Ghali,
o então secretário geral da ONU, assinalou a existência
duma vontade política afim de procurar uma solução
diplomática do conflito. Havia diálogos entre a
Australia, e representantes de Portugal e da Indonésia
em Roma, Genebra e Nova Iorque (e parece que ultimamente Portugal
deixa até transparecir a opinião de que ainda considera
Timor Leste território seu). Em 1995 até Ali Atlas,
o ministro de assuntos exteriores da República de Indonésia,
e o representante do Conselho Nacional da Resistência Maubere
- CNRM - José Ramos Horta caraterizaram seu diálogo
em Nova Iorque de "bom e útil."
A
Indonésia já concordou com uma redução
do número de soldados em Timor Leste e poderia inclusive
chegar a permitir o ensino da língua portuguesa. Não
obstante a repressão no território aumentou e de
nenhum modo Jakarta permite a presença de observadores
da ONU em Timor Leste. Isso dá a impressão de que
hoje as coisas se encontram num beco sem saída.
O
que resta para encontrar uma "solução global
e aceitável para a comunidade internacional" vai ser
aguardar o tempo "post Suharto." Sem dúvida alguma,
a situação do povo timorense significa, apesar de
ser um problema cultural e um problema de direitos humanos, um
caso de direito internacional que exige uma solução
justa. Visto desta perspectiva, bem pode ser que o status quo
não seja o status permanente. Na ocasião da concessão
do Prémio Nobel da Paz Dom Carlos fez uma observação
junto à "integração" de sua terra
como fato definitivo, que ela não teria sido definitiva
durante os vinte anos passados, o que ela possivelmente também
não seria nos próximos vinte anos. Como diz a sabedoria
lusa: "quem rir por último rirá melhor".