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UNO
O Brasil e a Fome A realidade brasileira depois do relatório
de Jean Ziegler
Heinz
F. Dressel
Foi justamente quando
o presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso se encontrava
em viagem ao exterior, discutindo com seu colega chileno as conseqüências
da catastrófica crise econômica do país vizinho,
Argentina, quando o relator da ONU, Jean Ziegler, acabou regalando
ao governo brasileiro um ovo de páscoa diplomático
(ou, quem sabe, pouco diplomá-tico), que provavelmente vai
ser motivo de prolongadas polêmicas.
Que foi que passou?
O sociólogo suíço
Jean Ziegler, relator especial da Comissão de Direitos Humanos
das Nações Unidas para o Direito à Alimentação,
atendendo um convite formalizado pelo governo brasileiro, colecionou
durante três semanas impressões e informações
correspondentes à situação socioeconômica
da população do país. Em seu relatório
publicado no mês de março do ano de 2002, ele se referiu
às 40.000 pessoas assassinadas todo ano numa `guerra social´,
caracterizando em várias entrevistas a morte daqueles que
morreram devido à subnutrição como espécie
de `homicídio´. Morrer de fome é um ato
de violência." Ziegler disse ter sido informado pelo
governo federal de que existem 23 milhões de desnutridos
no país; conforme os cálculos apresentados pela Confederação
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) porém, há 55
milhões de brasileiros subalimentados.
Neste sentido, assim
Ziegler, podia-se até comparar o Brasil com alguns dos países
mais pobres da África - Nigéria, Serra Leoa - que
têm um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano
do mundo e que estão sendo
prejudicados pela fome,
`porque não há nada, só areia e rocha´.
Mas no Brasil, `onde há terra fértil, riqueza e um
clima tropical´, conforme o relator da ONU, a fome é
um genocídio, e não uma fatalidade. Não é
a natureza que tem culpa. Uma pessoa que morre de fome ou que tem
uma vida sob a invalidez, com sofrimento permanente e crônico,
é vítima de um assassinato e não de uma fatalidade.
Há um culpado. Esta situação é um produto
de uma ordem social totalmente injusta. Quem morre de fome no Brasil
é assassinado", afirmou Ziegler. É um massacre
como o de Eldorado de Carajás, onde no dia 17 de abril de
1996, em confronto com a Polícia ,Militar morreram 19 trabalhadores
rurais, que, com outros 1.500 sem-terras, protestaram contra o governo
que demorou demais com a legalização do assentamento
de suas famílias. Os respectivos donos de empresas multinacionais
não deveriam ficar impunes; deveriam ser responsabilizados
pelo crime, exigiu Ziegler, pois seria possível de identificar
individualmente os assassinos.
Na América Latina,
uma entre quatro crianças com menos de 15 anos é gravemente
subalimentada. Desse modo, há um genocídio silencioso
num planeta que pode alimentar o dobro de sua população.
Há centenas de milhões de crianças que morrem
na gestação, vítimas do mau desenvolvimento
do feto ou do leite materno pobre em nutrientes, ou mesmo da falta
de leite. Outras crianças passam por fases de doenças
horríveis, como kwashiorkor, doença importada da África,
espécie de desnutrição por falta de leite substancial
materno, que provoca diarréia, anemia, letargia, retardamento
motor e ainda neutraliza o sistema de imunidade. O corpo da criança
incha apesar de que a doença trava o crescimento do corpo
e dos membros, criando anões, estimulando assim um rápido
processo de demência e pegando infecção; a criança
morre logo. Na cidade de São João de Meriti, nos últimos
meses, voluntários que trabalham num programa eclesiástico
contra a fome pesaram 5.930 crianças (de zero a cinco anos
de idade). Foram encontradas 391 crianças ( 6,6% do total)
desnutridas e 1.162 (19,9% do total) com risco de desnutrição.
Tudo isso me lembra duma
entrevista com o nutrista mais destacado de toda América
Latina, Prof. Nelson Chaves da UFPe, no Recife, que na época
gravei. A publiquei no Anuário de Educação,
Sociedade e Política na América Latina, 6/1981, Editada
por Achim Schrader & Horst Bahro, Münster, Dialog mit dem
`anderen´ Brasilien, sob o tópico `Der Hunger wird
vom Maschinenmenschen verursacht und genährt - a fome está
sendo causada e nutrida pelo homem-máquina.´ (pg. 279).
A luta profética
desse homem que era filho de uma família da aristocracia
açucareira de Pernambuco, mas como jovem médico abandonou
este seu passado a fim de dedicar-se inteiramente aos pobres nas
ruas, e antes de tudo às crianças. A luta desse homem
dirigia-se contra aqueles cuja atitude permitia que crianças
tivessem que passar fome. Dialogando com ele, chamei atenção
da frase de outro pernambucano famoso, Josué de Castro, autor
do livro A Geografia da Fome: `A metade da humanidade não
come e a outra não dorme por medo daquela que não
come.´ O prof. Nelson respondeu: `Esta frase de Josué
de Castro torna-se cada dia mais atual. A fome no Brasil e no mundo
inteiro aumenta cada vez mais.´ E ainda: `No Nordeste a fome
leva à formação de uma nova espécie
de gente, o homem anão, devido à falta de alimentação
apropriada.´ E o prof. Nelson acrescentou: `Tive que constatar
que o nível de inteligência na região açucareira
chegara ao grau da deficiência mental.´ O sobremaneira
elogiado `milagre brasileiro´, na opinião dele, não
era mais do que uma utopia. `Penso que os responsáveis não
percebiam a realidade´, disse ele, mas, distinguindo-se da
avaliação da situação apresentada por
Jean Ziegler, ele constatou: `O Brasil está sofrendo as limitações
ecológicas dum país trópico com solos precários.´
Nelson Chaves sobretudo valorizou o homem, antes de tudo sob `os
três aspectos fundamentais: alimentação, saúde
e educação.´ Destacando estes itens, ele apontou
as mesmas prioridades que uma geração mais tarde destacou
o relator especial da ONU, Jean Ziegler. Este sublinhou que, ao
lado do problema da fome, havia outras questões, como o vasto
campo da saúde, onde se consta uma crônica falta de
serviços em favor dos pobres; e também faltam escolas.
`Epidemias matam, fome mata´, diz Ziegler. Num presídio
em São Paulo ele encontrou centenas de jovens delinqüentes,
dos quais a maioria era de cor preta. Perplexo diante duma sociedade
marcada por uma disparidade absurda, comentou que presídios
não deveriam ser considerados solução apropriada,
substituindo assim escolas para a juventude brasileira.
O sociólogo Jean
Ziegler não vê saídas à "ditadura
mundial da desigualdade" e ao genocídio global silencioso
sem a realização de reforma agrária, sem o
rompimento com o sistema financeiro mundial e a quebra da ideologia
alienante do neoliberalismo, destinada a romper a resistência
dos pobres e dependentes.
Como pode ser a coisa
com o direito humano de usufruir de uma alimentação
adequada no Brasil, a gente podia ler uns meses atrás num
artigo do Jornal do Brasil (20.9.2001): `Magé, cidade das
crianças famintas.´ Os professores das 72 escolas públicas
daquela cidade de 350.000 habitantes perceberam que cada início
de semana muitos alunos chegavam para as aulas reclamando de dores
de estômago e prestes a desmaiar. Durante a semana, de segunda-feira
até sexta-feira, uns 23.000 alunos tem a sorte de participar
da merenda escolar organizada pela administração municipal.
Já que 23% da população subsistem em condições
de miséria, as crianças em casa não recebem
qualquer comida no fim de semana. Pode-se imaginar a fome destas
crianças quando elas vem à escola segunda-feira, aguardando
ansiosamente as 16.30 horas, quando a professora lhes oferece modesto
prato de comida. Se conseguir verbas, a Secretaria de Educação
pretende abrir as escolas também aos sábados e domingos,
para que as crianças futuramente não precisem passar
fome.
Uma pesquisa da ONU revelou
que 700.000 cariocas vivem abaixo da linha da pobreza, com renda
média de R$ 45.-- por mês. As conseqüências
de tamanho empobrecimento tornam-se especialmente desastrosas para
as crianças. Quando carecem de vitaminas e proteínas,
a fome e o cansaço logo terminam com as resistências
físicas e psíquicas dos alunos, dos quais muitos já
chegam anêmicos à aula.
Enquanto o Brasil central
é privilegiado pela própria natureza, a situação
sócio-econômica no Nordeste, onde se concentram 50%
dos mais pobres do Brasil, é muito pior, antes de tudo em
Alagoas e Pernambuco ou no Maranhão, o Estado mais pobre
da região. O Maranhão é o Estado brasileiro
que apresenta o maior índice de fome e pobreza do país
inteiro. Ao contrário do planejamento original, Ziegler,
a conselho do governo federal não visitou o Maranhão.
O MST, porém, criticou o relator da ONU por não ter
aproveitado a chance de se encontrar com militantes do movimento
que combatem a miséria e a injustiça.
No `triângulo da
fome´, no Nordeste, prolongadas épocas de seca repetidamente
flagelam milhares de sertanejos, e muitos deles têm que decidir
se preferem morrer de fome ou assumir o destino incerto de migrantes
e escravos modernos. Ou escolhem a fuga rumo às cidades,
onde terminam num dos mocambos terríveis na periferia da
civilização urbana, ou se dirigem rumo ao interior
do país, onde muitas vezes não escapam da escravidão
moderna.
A Comissão Pastoral
de Terra (CPT) registrou 30.000 casos de escravidão ou exploração
extrema de mão de obra humana pelos latifundiários
num período de apenas 5 anos. Via de regra, no Brasil hoje
em dia os escravos modernos são transportados às fazendas
em cima de caminhões de gado, de pé, às vezes
viajando vários dias. Ao chegar na fazenda, logo lhes botam
na sua conta as despesas de locomoção, muito exageradas,
bem como o `aluguel´ de uma rede debaixo de uns barracos precários
de plástico. Depois só conhecem desbravar a partir
das 5 horas da manhã, até que na hora do crepúsculo
chegam a devorar pouca comida. Já que não dispõe
de dinheiro, tudo que compram fica anotado no caderno da venda:
sal, feijão, arroz, botas e instrumentos para o trabalho
como machado e foice. No mês de março do ano em curso,
um dos quase-escravos, libertado com outros 49 companheiros pela
tropa antiescravidão, contou às autoridades que o
pessoal da fazenda os obrigou de pagar R$ 12.-- pelas botas que
utilizavam e R$ 6.-- pela foice. Camponeses que trabalharam de 21
de janeiro a 8 de março no latifúndio ganharam por
todo este período apenas R$ 20.--.
Num clima de tensão
social que nestas circunstâncias se cria de maneira irrefutável,
o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que luta pela
causa dos trabalhadores rurais sem terra, figura como válvula
de escape. O relator das Nações Unidas não
demorou de destacar que "só 2% dos proprietários
rurais concentram 48% das terras férteis. No Maranhão
77,80% das terras encontram-se em mãos de latifundiários
ou empresas multinacionais. As conclusões que Ziegler tira
de tudo, Ziegler resume em poucas mas brutas palavras: `O latifúndio
mata, é inimigo do povo",
Coloca-se aqui a pergunta:
De que jeito as ocupações organizadas pelo MST transformam
a vida dos `miseráveis´ (para empregar de propósito
aqui um termo de Frantz Fanon, que ainda tem atualidade)?
Ao visitar no Nordeste
do país três projetos do MST, ocupados nos últimos
dois anos, falei com vários camponeses que tinham conseguido
ganhar um pedaço de terra lá. Antes de tudo, queria
saber como eles próprios avaliaram sua situação
antes e depois do assentamento devido à atuação
do MST. Foi impressionante o que eles diziam: `Antes que a gente
chegou aqui, a vida era bem diferente. A gente morou na rua, não
tinha casa, trabalhava num pedacinho de terra, mas tinha que trabalhar
para o padrão. Passando a colheita, a gente foi obrigado
a abandonar o pedacinho de terra onde tinha plantado de novo. O
padrão até reclamou a palha do milho que tínhamos
plantado. Certo dia nos juntamos ao movimento dos sem-terra e hoje
temos uma vida muito melhor que antes. Fazemos parte dos 49 que
ocuparam estas parcelas de terra. Hoje cada um de nós já
tem casa. Já formamos uma Agrovila.´ Outro agricultor
me disse: `Ganhamos 3,5 hectares. Não achamos que isso seja
pouco, pois anteriormente vivíamos na rua mesmo, prestando
serviços ao proprietário da terra onde trabalhávamos.
Então isso aqui para nós é grande coisa! Não
é pequeno demais, para nós até grande demais.
Plantamos milho e feijão, abóbora, macaxeira, aipim
e temos pão. Plantamos não apenas para nós
mesmos, também vendemos algo na beira da estrada.´
Uma das mulheres tirou a soma: `Já temos uma escola e mantemos
contato com o prefeito. Temos 45 alunos e uma professora. À
noite organizamos cursos para adultos, que estão sendo bem
freqüentados. Organizamos uma cooperativa de costureiras para
as mulheres. A fazenda vem de fora e o que foi costurado pode ser
vendido em Caruaru e Santa Cruz.´ Um dos homens acrescentou:
`Este lugar agora já existe há quatro anos, e três
anos depois da ocupação e de mais um ano até
o reconhecimento oficial do assentamento já se transformou
em cidade rural. A propriedade do latifundiário foi desapropriada.
Agora já podemos celebrar a missa, já temos uma igreja
no lugar. Em termos de agricultura recebemos orientação
por um técnico agrícola. O animal mais importante
aqui é a cabra.´
Não pode ter dúvida:
Camponeses que antes mal subsistiam à margem do abismo ou
da miséria, hoje desfrutam neste lugar novamente do sentir
da dignidade humana, e seus filhos podem nutrir a esperança
de alcançar `um nível de vida adequado para si próprio
e para sua família, inclusive alimentação,
vestimenta e moradia adequadas, assim como uma melhoria contínua
de suas condições de vida´, como diz o Artigo
11 do Pacto de Direitos Econômicos Sociais e Culturais.
Até que se alcance
este objetivo, certamente haverá dura e prolongada luta,
que vai exigir grandes sacrifícios. O povo vai continuar
sofrendo sacrifícios, como se fosse numa guerra. Aqui todo
mundo se lembra dos massacres sangrentos de Corumbiara, em 1995
e de Carajás, com 19 mortos e 51 feridos no ano seguinte,
bem como de todas aquelas vítimas de outros massacres no
percurso de 20 anos de que se lamentam os sem-terra - as estatísticas
da Igreja falam de 115 mortos. `Uma guerra dos pobres contra os
ricos´, observa Oscar Niemeyer, o arquiteto da Capital Brasília.
(Der Spiegel 11/2002) E Jean Ziegler comenta a situação
global da seguinte maneira: `Se juntarmos todos esses números
do subdesenvolvimento (fome, epidemia, guerras induzidas pelas multinacionais
na África etc.), verificamos que, no ano passado, houve um
total de mais de 58 milhões de vítimas, segundo os
critérios da ONU. Dois milhões a mais que o total
de vítimas da II Guerra Mundial, a maior guerra da humanidade,
que durou seis anos, de 1939 a 1945. Ou seja, a III Guerra Mundial
já está em curso no Terceiro Mundo.´
Não se pode estranhar
que um pronunciamento desta natureza produz irritações
(como, aliás, também provoca apoio) entre os políticos.
O relator da ONU não deixou de sublinhar: `O Brasil tem um
governo muito competente e é uma potência econômica,
mas um terço da população vive em situação
horrível. É como se a França, a Alemanha e
a Somália estivessem no mesmo país", comparou.
O Ministério das
Relações Exteriores lamentou `o tom pouco construtivo
e a tônica desequilibrada `das declarações do
professor Ziegler, e declarou que as observações do
relator da ONU à imprensa, feitas ao término da visita
de inspeção de 18 dias, `colocam em risco a objetividade
de sua missão.´ Antes de tudo, porém, o governo
esforçou-se de corrigir o quadro feio pintado pelo visitante,
chamando atenção ao progresso que há uma década
pode ser registrado no campo da batalha contra a mortalidade infantil,
no campo de saúde em geral, e também no setor de educação
e instrução. Não menos do que 97% dos menores
estão matriculados nas escolas. Através de iniciativas
inovadoras como, por exemplo, o Programa de Erradicação
do Trabalho Infantil (PETI) da Secretaria Estadual de Planejamento
de Pernambuco, foi possível retirar do trabalho e colocar
na escola 126 mil crianças e adoles-centes de 7 a 14 anos
de idade, em 150 municípios. Elas atuavam no corte da cana,
em casas de farinha, na hortifruticultura e nos lixões. Para
cada filho mantido na escola os pais recebem uma bolsa de R$ 25,00.
Roberto Martins, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) constata que em 1994 cerca de 21% da população
brasileira vivia em extrema pobreza enquanto no ano de 2000 o índice
já ficou reduzido a 14%.
Satíricos talvez
lembrariam o exemplo por muito tempo preferido pelo próprio
presidente Fernando Henrique Cardoso: `Os pobres neste meio tempo
já alcançaram um nível econômico que
lhes permite comer meia galinha a mais por ano.´ Acontece
que, propriamente dito, nada mudou para os mais pobres entre os
pobres. Em números absolutos, o número de desamparados,
que viviam em miséria absoluta e são incapazes de
sair de sua situação sem ajuda, aumentou. Eram 18
milhões há um quarto de século. Devido ao crescimento
demográfico, são cerca de 23 milhões brasileiros
hoje.
O Brasil conta atualmente
com 170 milhões de habitantes. Há um quarto de século
um terço dos brasileiros ganhou na média 75.00 US$
por mês ao máximo, outro terço - mais ou menos
- ganhou US$ 150.00, ao máximo. Mais ou menos uma terceira
parte privilegiada ganhou US$ 315.00, e apenas 10% da população
inteira tinha à disposição um montante ainda
maior. Hoje, o produto interno bruto per capita alcança 4400.00
US$, o que significa uma média mensal per capita de mais
ou menos 366.00 US$. Sem dúvida alguma, a situação
sócio-econômica da geração que vive no
começo do terceiro milênio, comparada com a de seus
pais, no sentido aritmético, melhorou de maneira considerável,
acontece, porém, que ela está sendo confrontada com
outros problemas graves, p. ex., com uma dívida externa no
valor inferior a 230 bilhões US$, fato que naturalmente está
travando consideravelmente todo o progresso no campo social.
Outro aspecto importante
é a urbanização progressiva do país.
Sabemos que, já devido à história, o processo
de desenvolvimento do Brasil acontece na faixa do literal, com uma
extensão de milhares de quilômetros, assim que 80%
dos brasileiros vivem numa faixa de apenas 100 quilômetros
de largura ao longo do Atlântico, onde desde a criação
das capitanias surgiram os grandes centros, que sofrem de megalocefalite,
enquanto no interior o número de habitantes se reduz cada
vez mais.
Publiquei no ano de 1971,
sob a influência dos conceitos paradoxais muito em praxe na
época - como p. ex. Gilberto Freyre: Casa-grande e senzala,
e Jacques Lambert Os dois Brasis, - meu livro: Das reiche Land der
Armen, Brasilien - heute und morgen (A rica terra dos pobres, Brasil
- hoje e amanhã). Desde que se registrou nos anos 80 na sociedade
brasileira um ímpeto de modernização, iniciando
importantes transformações, parecia que teorias dualísticas
e paradoxais como aquela dos já clássicos dois Brasis,
de Jacques Lambert, ter-se-iam autodissolvido. Acontecimentos como
o debate acerca do relatório de Jean Ziegler, todavia, comprovam
como são virulentos também num Brasil - que hoje está
sendo reconhecido internacionalmente como potência econômica
séria - os dualismos aparentemente tão atávicos.
A rica terra dos pobres não desapareceu de modo nenhum. Quando
nos anos 2000 e 2001 realizei minhas excursões rumo ao Recife
e à Caruaru, me encontrei, como há 20 anos, em dois
mundos totalmente diferentes. A presença dos dois Brasís
comprovava-se também pelo fato de que católicos, luteranos,
anglicanos, presbiterianos, metodistas e até ortodoxos uníssonos
e em grande solidariedade se pronunciaram de maneira bastante crítica
sobre as conseqüências da política econômica
de Fernando Henrique Cardoso, falando de `mais de 30 milhões
de brasileiros à beira da miséria.´ Jean Ziegler
confirmou este quadro da realidade brasileira, ao observar: `Fala-se
tanto da modernização, mas, às vezes, parece
que o Brasil ainda é o mesmo de uns séculos atrás.
Certamente seria equivocado
acusar o relator especial da ONU de simplista ou perambulante cego
quando ele acentua aspectos desfavoráveis ou escandalosos
que pertencem à realidade brasileira da mesma forma como
os dados econômicos grandiosos que resultam das estatísticas
oficiais, realçando o Brasil como a décima maior potência
econômica do mundo. Os antagonismos na vida social e econômica
do Brasil porém ficam presentes do mesmo jeito como o choque
entre diferentes tradições regionais ou clãs
de famílias influentes rivalizando.
As contradições
tornam-se ainda mais evidentes quando se toma em consideração
a estrutura fundária brasileira, problema nunca resolvido.
A política agrária obedece às exigências
da globalização que se orienta exclusivamente no aspecto
do lucro, sem dar consideração nenhuma ao bem-estar
do cidadão. Esta política orientada apenas em aspectos
econômicos e não sociais, favorece a concentração
de terras nas mãos dos latifundiários particulares
ou empresariais. É evidente o impacto que esta política
têm junto à agricultura de subsistência. O ex-chefe
da Secretaria Nacional de Política Agrícola, Guilherme
Dias, informa que nos primeiros dois anos do governo FHC pelo menos
400.000 desapareceram. O número de propriedades rurais entre
10.000 e 100.000 hectares, porém, cresceu em 4% depois da
incorporação de 790.000 hectares provindos das propriedades
pequenas `desaparecidas´. O latifúndio cresceu a custo
das pequenas propriedades. É assim que o índice dos
miseráveis aumenta continuamente.
No ano de 2001 em todo
território do Brasil 75.730 famílias de trabalhadores
rurais sem-terra subsistiam em 585 acampamentos sob condições
muito precárias, de fato sub-humanas. O número daqueles
que com as suas famílias se encontram à margem da
miséria não enxergam outra saída para sobreviverem
senão a ocupação de terras latifundiárias
em conjunto com o MST. Há uma década o número
dos ocupadores ainda era de uns 10.000 por ano, hoje já são
80.000 anualmente. Em face desta situação, o relator
da ONU exige do Estado `que os acampamentos dos sem-terra recebam
títulos de propriedades; que seja feita uma reforma agrária,
com a criação de lei limitando a concentração
de terra´.
Durante um entrevista
concedida pelo presidente Fernando Henrique Cardoso aos repórteres
Jens Glüsing e Matthias Matussek da revista Der Spiegel (40/2000),
o chefe da Nação reconfirmou sua argumentação
já conhecida, declarando: `Durante o meu governo foram assentados
mais famílias do que nos 30 anos anteriores. Eu assino quase
todo dia um decreto de desapropriação. Desapropriamos
do patrimônio dos latifundiários 17 milhões
de hectares, que é a metade do tamanho de Finlândia,
e isto pela primeira vez na história do Brasil.´
De modo bem diferente
argumenta o spiritus rector do Movimento dos Trabalhadores Rurais
Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile, que reclama uma
revolução social (ISTOÉ 31.3.2000): `A pobreza
no campo está aumentando. Alegando que tenha aí uma
reforma agrária é mentira. Temos um modelo econômico
que concentra cada vez mais a terra e a renda; que exclui a agricultura
do mercado interno e apenas favorece a exportação;
um modelo que aumentou o desemprego na cidade e no meio rural. O
governo se arvora em divulgar que assentou 350.000 famílias.
Ao mesmo tempo 942.000 perderam a terra. É necessário
a democratização da propriedade rural. Não
basta mais ocupar terras, pressionar para desapropriar. O modelo
econômico têm que mudar.´
As transformações
evidentes que no espaço de poucas décadas tomaram
lugar no Brasil, país de 8,5 milhões de quilômetros
quadrados e que constitui o quinto maior país do mundo, exigem
um novo approach e um posicionamento novo.
Jean Ziegler, o relator
especial da Comissão de Direitos Humanos das Nações
Unidas para o Direito à Alimentação, tomou
a liberdade ex ofício de criticar de maneira sensível
a política social do governo Fernando Henrique Cardoso e
de constatar sine ira et studio que o Brasil não tenha cumprido
devidamente o Pacto de Direitos Econômicos Sociais e Culturais
formalmente assinado pelo Ministério de Assuntos Exteriores.
Reconhece-se as providências tomadas pelo governo, mas não
são suficientes para superar a pobreza e a fome, A `disparidade
notória entre Genebra e Somalia´ não pode ser
aceita.
Resta apoiar a observação
de Ricardo Mendonça (veja 23.1.2002): `Não se sabe
ainda quais serão os candidatos a presidente, mas já
se sabe qual será o maior desafio do novo governo: reduzir
esse contingente de padrão africano. (Fin)
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