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A
Ofensiva da Direita no Campo no Brasil
Malu
Maranhão[1]
Vilmar
Schneider[2]
A defesa da propriedade
da terra e do poder político que dela emana, historicamente,
no Brasil, foi feita na base das armas, dos pistoleiros, dos jagunços,
a serviço dos coronéis, que como aos senhores feudais
usavam e abusavam da violência, com suas milícias.
As milícias dos coronéis no Nordeste do Brasil, se
tornaram uma instituição, usadas, juntamente com a
polícia e até o exército, para combater quem
lutava pela terra. Canudos foi um dos primeiros exemplos. Depois,
na época da ditadura, as Ligas Camponesas foram combatidas
da mesma maneira.
A partir de 1985, quando
o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi organizado,
a resposta imediata dos latifundiários veio através
da União Democrática Ruralista (UDR), a mais abrangente
organização de grandes proprietários rurais,
que usava e pregava a violência e as armas para combater os
sem-terra. Até o final dos anos 80, a UDR reinou absoluta,
conseguindo, em 11 de julho de 1987, levar até Brasília
40 mil grandes proprietários rurais para pressionar a Constituinte
a votar contra as propostas de reforma agrária.
Daí em diante,
a UDR sofreu um declínio, principalmente em 1989, quando
seu líder máximo, Ronaldo Caiado, foi candidato à
Presidência da República e obteve apenas 0,68% dos
votos, rachando a entidade, pois a maioria preferiu apoiar Fernando
Collor, considerado mais moderado. Atualmente, a UDR
subsiste, com suas milícias, armas e truculência, apenas
no Paraná e no Pontal do Paranapanema, em São Paulo.
No entanto, sem uma abrangência nacional, latifundiários
continuam se unindo para manter milícias. Elas podem ser
legalizadas sob a fachada de empresas de segurança,
como acontece em Mato Grosso do Sul, em Mato Grosso e em São
Paulo; podem aparecer como realmente são, um grupo de pistoleiros
contratados por fazendeiros que se cotizam, como na Paraíba;
podem estar, como em Alagoas, a serviço da Federação
da Agricultura ou até como em Goiás, onde um grupo
de fazendeiros do município de Caiapônia, criou a Patrulha
Rural, eufemismo para um grupo de pistoleiros. No Norte do Brasil,
especialmente no Pará, os fazendeiros não se unem.
Cada um deles tem seus próprios pistoleiros, os seguranças
das fazendas.
Qualquer que seja o
nome e a forma, a pistolagem resiste, alimentada pela impunidade.
Ás vezes, eles são pistoleiros porque o seu pai e
avô também foram: uma tradição
de família. Porém, é cada vez maior o número
de ex-policiais que se presta a esse serviço. Ou policiais
que nas horas de folga completam seus salários com a pistolagem.
Não raro, e isso é mais evidente no Paraná
e São Paulo, são realizadas operações
conjuntas reunindo a Polícia Militar, devidamente uniformizada
e os pistoleiros a serviço dos fazendeiros para ações
de despejo, prisão, tortura e intimidação dos
sem-terra.
A Questão Agrária
Brasileira
Na raiz desta questão
está o problema agrário brasileiro, que até
hoje não foi resolvido. A questão agrária,
em resumo, tem três aspectos principais. Em primeiro lugar,
a extrema concentração da propriedade da terra, em
grande parte ociosa e mal utilizada. Os estabelecimentos agrícolas
com mais de 1.000 hectares representam 1% do total dos estabelecimentos
e acumulam 45% da área ocupada do país. Destes, mais
de 80 milhões de hectares estão improdutivos ou abandonados.
Em segundo, o processo de modernização capitalista
conservador, assentado no modelo agropecuário latifundista,
tecnificado, exportador, gerador de desemprego, exclusão
e miséria. Em terceiro, o grande número de excluídos
do acesso à terra e ao trabalho, abandonadas pelas políticas
do Estado. São 5 milhões de famílias sem terras.
A miséria atinge 32 milhões de brasileiros.
A forma da apropriação
da terra e a concentração fundiária, que remontam
aos tempos da colonização portuguesa, estão
na raiz de muitos dos problemas sociais, políticos e econômicos
do país. O latifúndio começa a se instalar
no Brasil quando a Coroa Portuguesa transplantou para a Colônia
o regime de sesmarias, que consistia na doação da
posse de grandes áreas de terras aos brancos, puros de sangue
e católicos, visando a produção para o mercado
europeu. Para a exploração das terras, foram escravizados
os indíos e negros, estes últimos trazidos da África.
Na segunda metade do
Século XIX, quando a escravidão começava a
dar lugar a relações capitalistas de produção,
os senhores de escravos criaram o direito de propriedade privada
da terra. Com a Lei de Terras (1850), a terra passou a ser comprada.
Com isso, interditaram a terra aos escravos que seriam libertos.
Os escravos se tornam trabalhadores livres, porém sem terra.
A terra se torna cativa para resolver um problema que os senhores
teriam com a libertação de seus escravos: quem iria
trabalhar em suas terras. A outra parte do problema dos senhores
foi resolvida com a chegada de imigrantes europeus, expulsos de
seus países pelo avanço do capitalismo.
A injusta estrutura
fundiária, fator de poder e de benefício para as oligarquias,
encontrou um sólido pilar de sustentação no
Estado e na lei. Num país de ex-escravos, índios e
imigrantes, cuja relação com a terra se pautava pela
ocupação para trabalho - privilegiou-se a propriedade
absoluta da terra, independente de sua função social
ou posse. A pessoa com direitos de cidadão passou a ser o
proprietário. O despossuído não se constituiu
num beneficiário do direito do proprietário, mas ficou
numa condição de subcidadania. Este modelo reduziu
sensivelmente o espaço social, econômico e político
dos pobres, empurrando-os à (ou mantendo-os na) exclusão
e à ilegalidade
Nos últimos 50
anos, ocorreu um amplo processo de modernização da
agricultura, com a incorporação de novas tecnologias,
que ampliou ainda mais a concentração da propriedade
da terra e a exclusão dos camponeses, intensificando o êxodo
rural e a migração. A modernização aconteceu
no plano econômico, não no plano social e político.
O setor agropecuário transformou-se com a modernização
do latifúndio, do fortalecimento da tendência exportadora,
da formação de complexos agroindustriais, da articulação
do capital financeiro e industrial com atividades agrícolas
e a propriedade da terra. O processo de modernização
do campo gerou um desenvolvimento econômico extremamente excludente,
uma sociedade injusta e um modelo político autoritário
e distorcido. O modelo de desenvolvimento para o campo priorizou
a agricultura capitalista em detrimento da agricultura camponesa.
No período recente, a adoção das políticas
neoliberais, de liberalização internacional e de desregulamentação
nacional tem resultado na destruição da agricultura
de base familiar, no êxodo crescente, desemprego, precarização
das relações de trabalho, superexploração
e trabalho escravo.
As mudanças ocorridas
na últimas décadas na área econômico-produtiva
não vieram acompanhadas das necessárias mudanças
na estrutura fundiária. No aparato legal foram introduzidos
novidades importantes como a exigência do cumprimento da função
social da propriedade e o instituto da desapropriação
para fins de reforma agrária. Porém, os poderes públicos
não aplicaram estes preceitos. A unidade dos interesses entre
o capital financeiro e industrial e o capital agrário, somada
ao forte controle oligárquico do aparelho de Estado, em seus
diversos níveis, inviabilizou uma solução para
a questão agrária. O poder do latifúndio e
do atraso sempre se impuseram pelas alianças políticas
ou pela violência.
Por outro lado, as contradições
e conflitos do modelo de desenvolvimento adotado pela elite nacional
fizeram surgir, no decorrer da história brasiliera, inúmeras
lutas de resistência e de conquista de direitos, lutas pelos
meios de trabalho e produção. Das lutas dos índios
contra a expropriacao até a luta dos negros pela terra livre
dos quilombos, da luta de Canudos e do Constestado até as
Ligas Camponesas, a resistência indígena negra e camponesa
sempre aconteceu e assumiu diversas formas. Nas últimas décadas,
emergiram novos atores e formas de organização e de
luta. As lutas dos seringueiros, ribeirinhos, índios, atingidos
por barragens, dos remanecentes de quilombo, dos sem terra e dos
agricultores familiares ganharam dimensão nacional com novos
atores sociais em movimento. Eles se constituem principalmente a
partir dos anos 80.
Estes movimentos tem
clareza de que a proibição do acesso a terra é
de natureza política. Expressa a forma como o capital se
apropriou da terra e como a usa para manter seu poder e o modelo
excludente, injusto e autoritário. A luta pela terra e pela
reforma agrária não é apenas luta por um pedaco
de terra, mas é a luta contra o capital, e, nos tempos atuais,
contra o modelo neoliberal com que este capital se configura. A
luta pela terra é luta contra o poder oligárquico,
é disputa de partes do território, monopolizado pelo
capital. A democratização da terra é condição
de um novo modelo de desenvolvimento e de uma sociedade democrática
e justa.
A resposta das elites
e do próprio Estado à luta dos trabalhadores rurais
continua sendo a perseguição e repressão sistemática
dos movimentos sociais no Brasil. A violência contra os trabalhadores
rurais e seus líderes, na quase totalidade dos casos, permanece
impune. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra, nos
anos de 1985 a 2001 - note-se que se trata do período de
vigência do Estado Democrático de Direito no Brasil
- foram assassinados 1.208 trabalhadores rurais e lideranças
e até o momento apenas 8 mandantes destes assassinatos foram
condenados.
A violência ocorre
também na forma de despejos, torturas, prisões arbitrárias,
ameaças, destruição de casas e instrumentos
de trabalho, etc. Ela é praticada tanto pelo Estado como
por agentes privados.
UDR: ascensão
e queda
A UDR foi criada em
16 de maio de 1985, em Goiânia, estado de Goiás (Centro-Oeste
do Brasil) por um grupo de fazendeiros liderados pelo médico
e também fazendeiro Ronaldo Caiado, com o objetivo de se
opor à reforma agrária. Rapidamente, a entidade se
ramificou em 11 estados e lançou uma ofensiva contra a reforma
agrária e as ocupações de terra. No dia 29
de novembro de 1986, a UDR anunciou uma vitória, afirmando
que teria conseguido eleger 300 deputados. No entanto, evidenciou
sua fragilidade política não conseguindo eleger Mauro
Borges para o governo de Goiás. Em 11 de julho de 1987, 40
mil produtores rurais tomaram Brasília de assalto para pressionar
a votação da Constituinte e Caiado anunciou que a
UDR tinha 250 mil filiados em 20 estados. No campo, a UDR orientava
seus seguidores para se armar e enfrentar os sem-terra.
Em 10 de maio de 1988,
outra vitória da UDR que fez aliança com a direita
menos raivosa, os parlamentares do chamado Centrão
e a Constituição foi aprovada sem mexer no latifúndio
dito produtivo. Em 21 de fevereiro de 1989, a UDR lançou
a candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência, em Brasília.
Em 15 de novembro, Caiado recebeu apenas 0,68% dos votos ficando
em décimo lugar na corrida presidencial. A UDR saiu desmoralizada,
rachada, deixou de ser considerada uma força política
e foi o começo do fim daquela que se anunciava como a maior
entidade de produtores rurais do mundo. Em 1990 foi eleito um novo
presidente da UDR, Nagib Abud Filho, que tentou amenizar o discurso.
A partir daí, a UDR foi desaparecendo e se mantém
com a sigla apenas no Paraná e São Paulo. A atual
presidente, Tânia Tenório vive no Pontal do Paranapanema,
mas divide espaço com outras organizações de
latifundiários, como Movimento nacional de Produtores (MNP)
que apesar de os métodos e da filosofia serem os mesmos da
UDR, abandonou a sigla.
O que pretendia a UDR,
seus métodos, como se tornou tão forte? Em 1988, a
Comissão Pastoral da Terra (CPT), Associação
Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), Movimento Sem Terra
(MST), Instituto Brasileiro
de Análises Sócio-Econômicas (IBASE) e Instituto
de Estudos Sócio-Econômicos (INESC), elaboraram um
dossiê sobre a UDR tentando responder a essas perguntas.
A força das
armas
Hoje já
podemos confessar que, realmente, compramos armas com o dinheiro
arrecadado nos leilões de bois que fazemos. No primeiro,
em Goiânia, adquirimos 1.636 armas. Com o segundo, em Presidente
Prudente (SP), adquirimos mais 2.430 armas e aí proliferaram
os regionais da UDR. Atualmente, temos mais ou menos 70 mil armas,
representando a cabeça de cada homem da UDR, homens que deixaram
de ser omissos na história do nosso país (declaração
de Salvador Farina, presidente da UDR/Goiás em abril de 1987,
publicada em O Germinal Centro-Oeste).
Com essa filosofia e
disposição, a UDR surgiu em um contexto onde existiam
brechas abertas pelos canais dos representantes da burguesia rural
ligados ao governo e representados pela Confederação
Nacional da Agricultura (CNA), Organização das Cooperativas
Brasileiras (OCB) e Sociedade Rural Brasileira (SRB). Essas entidades,
de início, isolaram a UDR por considerá-la estigmatizada
pela imagem do radicalismo.
Quando, em 1986, elas
criaram a Frente Ampla da Agropecuária Brasileira
com a proposta de unir as reivindicações para o setor,
atuar como mecanismo de pressão e ao mesmo tempo assessorar
o governo brasileiro na formulação de uma política
agrícola para o país não convidaram
a UDR para compô-la. Porém, a verdade é que
todas essas entidades são apenas uma reunião formal
de produtores e a representação real é feita
por associações por produtos. Como a UDR nasceu para
combater a reforma agrária e esta afetava principalmente
os pecuaristas devido a extensão de suas áreas
e aos índices de produtividade adotados pelo Incra para essa
atividade eles se uniram na UDR. Tanto que, atualmente, a
UDR tem como herdeiros associações como
o Movimento Nacional de Produtores (MNP) formado por pecuaristas
e forte no Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná e
Minas Gerais. Os métodos são os mesmos da UDR, inclusive
mantendo milícias privadas para combater os sem-terra.
As diferenças
entre Ronaldo Caiado (UDR), Flávio Teles de Menezes (SRB)
e Roberto Rodrigues (OCB) eram marcantes. A SRB era contra a reforma
agrária, porém se colocava na defesa do produtor rural,
especialmente da produção agrícola, enquanto
a UDR defendia e ainda defende a propriedade da terra em si. Além
disso, Menezes não gostava da postura e do estardalhaço
de Caiado e de sua política de conquistar as presidências
da entidades rurais. Roberto Rodrigues também se queixava
de que Caiado estava desestabiliizando as cooperativas.
Um dos maiores trunfos
da UDR foi perceber a fragilidade das representações
de sua classe ligadas ao governo (CNA, sindicatos patronais cooperativas)
e formular propostas claras de unificação suprapartidária,
apontando como inimigos os retrógrados estatizantes,
isto é a Igreja progressista (em especial a CPT) e os movimentos
sociais. Além disso, a UDR articulou rapidamente os segmentos
interessados em vários estados, conquistou espaços
importantes na mídia, criou uma equipe de assessores altamente
profisionalizados - jurídicos e de comunicação
- e aproveitou as falhas do Incra e do Ministério da Reforma
Agrária (Mirad) para fazer críticas contundentes.
As teses da UDR
Entre homens honrados,
decentes e civilizados, a propriedade só existe pelo fruto
de seu trabalho. Esta frase, dita por Salvador Farina, presidente
da UDR de Goiás, em 1987, demonstra bem a visão da
UDR. Não existem o latifúndio, a concentração
de terra, a grilagem, o suborno nos cartórios, a falsificação
dos documentos, a violência impune e seletiva contra os trabalhadores
rurais. Tudo desaparece na concepção de que as propriedades
rurais existentes são unicamente o fruto do trabalho de seus
proprietários, independente da maneira como elas foram obtidas.
Para a UDR a concentração de terra é um mito
e a única coisa que torna as terras improdutivas é
a falta de uma política agrícola adequada. A violência
contra os trabalhadores rurais sem-terra, posseiros
e índios é tabu e só existe terrorismo
fundiário por parte do Incra e por organizações
planejadas por aiatolás seguidores de Leonardo Boff (teólogo).
Para a UDR o direito
à propriedade é intocável. Tentar ferir esse
direito é desestabilizar a produção, provocar
o caos e um retrocesso econômico. Segundo Abelardo Luiz Lupion
de Mello que até hoje é o presidente da UDR
do Paraná a UDR não abre mão do
tamanho da propriedade, porque ela é do tamanho da coragem
e da competência do produtor. Mas o que pesa mesmo na
concepção da UDR é que a terra é fonte
de poder e os grandes produtores rurais são os únicos
que têm vocação agrícola. Quanto aos
excluídos da terra, na sua concepção, deveriam
se contentar em trabalhar como arrendatários, meeiros. A
UDR também não aceita a palavra sem-terra
que foi criada pela esquerdinha de butique e pela Igreja marxista,
segundo Caiado.
A UDR acentua a necessidade
de uma união entre os produtores rurais eliminando
a palavra fazendeiro do seu vocabulário e os trabalhadores
rurais, obviamente os não organizados. Investe contra os
sindicatos de trabalhadores rurais, o MST, a Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) e particularmente contra a CPT. No discurso
da UDR a ocupação é crime, o acampamento
é a miséria amontoada nas estradas, é
a socialização da miséria, é
a ilusão dos trabalhadores por terra.
O crescimento da UDR
coincidiu com o aumento da violência no campo e não
poderia ser de outra maneira. Os fazendeiros, Ronaldo Caiado no
comando, realizaram vários e milionários leilões
de bois sem ocultar que parte desse dinheiro seria usado para comprar
armas e defender-se das invasões. Os fazendeiros
mantém milícias privadas ou recorrem à empresas
de segurança. Em 1986 a firma Solução,
sediada em Goiânia, foi envolvida no massacre de posseiros
no Vale do Juarí, norte de Goiás.
A imprensa revelou a
ligação entre a UDR e essa empresa. Em março
de 1986, um carregamento de armas sumiu do navio Nobistor
e as autoridades brasileiras descobriram que parte desse armamento
poderia estar nas mãos dos fazendeiros da UDR duas
metralhadoras, uma submetralhadora, seis pistolas, duas escopetas
e duas granadas de boca para fuzil, além de farta munição
que daria para abastecer um batalhão, segundo o inquérito
da polícia federal. A suspeita do envolvimento da UDR surgiu
depois de constatada a presença de dois oficiais reformados
da Marinha argentina a bordo do navio, durante os dias em que ficou
fundeado clandestinamente em Niterói (RJ). Um deles, Oscar
Lattuada, havia telefonado para fazendeiros de São Paulo
antes da chegada dos policiais federais. O Serviço Secreto
da Marinha brasileira descobriu que um dos telefonemas foi dado
para a Agropecuária Lugomes Ltda, sediada na Fazenda Clotildes,
de Luiz Eduardo Gomes, que fazia parte da UDR. Essas armas nunca
foram achadas.
As novas caras da UDR
Depois do fracasso da
candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República
em 1989 quando não obteve nem 1% dos votos - juntamente
com a rejeição dos outros segmentos da elite agrária,
que não queriam se vincular a uma entidade tão violenta,
a UDR entrou em declínio, mas não os seus métodos.
Atualmente, com esta sigla, ela existe apenas no Paraná e
em São Paulo (no Pontal do Paranapanema). Porém, outras
organizações com outros nomes, mas a mesma prática,
estão espalhadas pelo Brasil.
O Pontal do Paranapanema
é a segunda região mais pobre do estado de São
Paulo e onde o MST atua desde 1990. As terras do Pontal já
foram reconhecidas como griladas e os latifundiários, amparados
por títulos falsos, defendiam suas propriedades (improdutivas
e devolutas) individualmente. Existe na região cerca de um
milhão de hectares de terras todas consideradas devolutas,
algumas já com processos julgados em primeira instância
e outros em segunda instância. A posição dos
fazendeiros não é unânime. Existe um grupo ligado
ao Sindicato Rural que defende a negociação com o
Estado em troca da regularização de parte de suas
fazendas. Outro grupo é ligado à UDR, que não
quer negociar mesmo sabendo que seus títulos são falsos,
e se arma para evitar as ocupações.
A partir de 1997, quando
ocorreram as ocupações das fazendas São Domingos
e Santa Rita, a UDR voltou a se organizar na região e houve
uma intensificação da violência provocada pelas
milícias privadas ligadas à entidade. A UDR é
composta pelas famílias dos maiores latifundiários
da região: famílias Duarte, Lemos, Negrão,
Junqueira, Prata e Bittencourt. A atual presidente é Tânia
Tenório, produtora com terras em Presidente Venceslau e Mirante
do Paranapanema. A UDR costuma contratar os serviços de empresas
de segurança, como a Ruralprev, que fornecem guardas
fortemente armados, geralmente ex-policiais, para garantir a segurança
das fazendas. A atividade de empresas como essa, já
foi questionada pelo Ministério Público.
O Paraná é
o estado onde a UDR ainda se mantém muito forte com a mesma
sigla. Mais do que isso, atua em estreita colaboração
com a Polícia Militar. Os pistoleiros, a serviço dos
fazendeiros da UDR, participam de operações
conjuntas com a Polícia Militar para realizar despejos
nos quais a violência predomina. Estas ações
são sempre realizadas de madrugada ao contrário
do que a lei determina sem a presença de um oficial
de justiça e os policiais militares, confundindo-se com os
pistoleiros, usam máscaras de esqui para esconder o rosto
e tiram as identificações das fardas. Presos, os sem-terra
são espancados e torturados. Freqüentemente, policiais
e pistoleiros entram atirando nos acampamentos. No governo de Jaime
Lerner, o governador que mais cedeu às pressões da
UDR, foram assassinados 16 sem-terra no Paraná. A violência
é tão grande que provocou denúncias na Comissão
de Direitos Humanos da ONU e da OEA e a realização,
no dia 2 de maio deste ano, em Curitiba, do Tribunal Internacional
dos Crimes do Latifúndio e das Violações dos
Direitos Humanos no Paraná.
A simbiose perfeita
entre a UDR e a Polícia Militar do Paraná é
atestada por um vídeo, obtido pela CPT/PR, mostrando Abelardo
Lupion, presidente da UDR, como convidado de honra do 1º Seminário
Interno da PM do estado. Lupion é apresentado como o nosso
candidato ele é deputado e com quem devemos
somar forças. No Tribunal Internacional realizado em
Curitiba, sem-terra torturados deram seu depoimento. E também
um jornalista, Alexandre Sanches, que contou que durante as operações
de despejo, é barrada a presença da imprensa, advogados
e ativistas dos direitos humanos, mas os fazendeiros da UDR e seus
pistoleiros passam tranqüilamente pelas barreiras montadas
pela PM. Em reportagem publicada no jornal O Estado do Paraná
em 26 de outubro de 1997, Abelardo Lupion, dizia: Os grandes
proprietários rurais vão desencadear uma violenta
reação às invasões de áreas
produtivas ou improdutivas. Quem invadir nossas propriedades será
recebido a bala. A UDR está cumprindo o que prometeu.
A nova cara da UDR no
Mato Grosso do Sul é representada pelo Movimento Nacional
de Produtores (MNP). Ele nasceu no Pontal do Paranapanema (SP),
onde, com este nome, disputa espaço com a UDR. Quem achar
que existe uma rivalidade entre as organizações está
enganado. A ideologia e os métodos são os mesmos:
combater a reforma agrária e usar milícias privadas,
especialmente contra o MST. O MNP também atua em Minas Gerais
e chegou até a editar uma cartilha orientando os fazendeiros
a combater as ocupações.
O MNP utiliza empresas
de segurança, organizações paramilitares
formadas por ex-policiais fortemente armados. É a legalização
da pistolagem. Os pistoleiros agora usam uniformes e se reúnem
em empresas legalizadas. Uma delas, a COES, foi responsável
no ano passado, em Rio Brilhante (MS), pelo seqüestro, tortura
e execução de dois líderes do MST. Na ocasião,
o ministro da Justiça prometeu investigar todas as empresas
como a COES e revogar as licenças de funcionamento. A COES
foi extinta, mas as outras sequer foram investigadas.
No dia 9 de maio deste
ano, o MNP reuniu em Nova Alvorada do Sul (MS), cerca de 1.500 produtores
de cinco estados, entre eles Ronaldo Caiado que depois de um bom
tempo em silêncio voltou a aparecer e a se manifestar contra
a reforma agrária. Esteve também presente Roosevelt
Roque, presidente do Sindicato Rural de Amaurilândia (MS)
e ex-presidente nacional da UDR. Ele promete reativar a entidade
na sua região. O encontro, denominado Agenda Nacional de
Soluções para o Campo propôs, entre outras medidas,
a identificação de quem ocupa terras para a exclusão
do Programa de Reforma Agrária e a sua criminalização.
Os produtores reafirmaram a intenção de contratar
seguranças para as fazendas.
Milícias privadas
aterrorizam no Nordeste
No Nordeste do Brasil
existe uma longa tradição de pistoleiros que
lá são chamados de jagunços a serviço
dos coronéis, poderosos senhores de terra que
enriqueceram na época de ouro da cana-de-açúcar
e do cacau. Embora a riqueza já não seja tão
grande e o poder tenha diminuído bastante, os fazendeiros
ainda se utilizam com muita freqüência dos pistoleiros.
O estado da Paraíba
é um exemplo disso. No início dos anos 60 os pistoleiros
eram usados para combater as Ligas Camponesas e assinar seletivamente
seus líderes, como foi o caso de João Pedro Teixeira.
Atualmente, eles combatem o Movimento Sem Terra e assassinam da
mesma maneira. Recentemente, o deputado estadual Frei Anastácio
(PT/PB), conseguiu a instalação de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência no Campo,
no estado. O objetivo da CPI é investigar a formação
de milícias privadas formadas por policiais e jagunços.
As milícias atuam
em 22 áreas de conflitos agrários e a estimativa é
de que pelo menos cinco mil pessoas estejam vivendo em clima de
tensão e correndo risco de vida cada área possui,
em média, 80 famílias acampadas. Em abril do ano passado,
por exemplo, dois policiais militares foram presos em flagrante
na fazenda Santa Luzia (município de Cruz do Espírito
Santo) por prestar serviços de segurança
ao proprietário. Os policiais usavam carros oficiais e com
eles foram apreendidas diversas armas. Além de matar os lavradores,
as milícias usam de todas as formas de violência: espancamentos,
torturas e prisões arbitrárias.
Um grupo de pistoleiros
e policiais se organizou para prestar serviços
aos fazendeiros, formando uma espécie de cooperativa macabra.
A CPI conseguiu listar 18 nomes de jagunços e policiais envolvidos
nessa atividade: Cláudio Félix da Silva, Sérgio
Azevedo da Silva, Marco Antônio de Assis (sargento da PM),
José Sulino Filho, um cabo da PM conhecido como Paulinho,
soldado da PM conhecido como Chicão, Henrique Lopes, Antônio
Lucas, Alcides Vieira da Silva, Marcos Ferreira da Silva, Cícero
Bastos da Silva, Marcos Vinícius, Enéas das Neves,
Alexandre José, sargento da PM conhecido como Carlão,
Naldo, Caé e Caretinha.
Este grupo atua nas
seguintes áreas de conflito: fazenda Capim de Cheiro (município
de Caapora), Cachoeirinha (município Camalaú), Marinas
de Abiaí (municípios Conde/Pitimbu), Acampamento Dorcelina
Folador (Cubati), Jardim (Curral de Cima), Santa Luzia (Cruz do
Espírito Santo), Tanques (Itabaiana), Mata do Chocalho (Jacaraú),
Ponta de Gramame (João Pessoa), Acampamento Novo Horizonte
(Juarez Távora), Mendonça e Corvão (Mogeiro),
Boa Sorte (Pilar), Santa Emília (Pedras de Fogo), Acampamento
Margarida Maria Alves (Pombal), São Salvador e Cobé
(Sapé), Mata da Vara, Maravalha, Santa Emília e Água
Branca (São Miguel do Taipu) e Antas (Sobrado).
De 1980 a 2000 foram
assassinados na Paraíba 16 trabalhadores rurais, entre elas
lideranças famosas como Margarida Maria Alves, presidente
do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, em 12 de
setembro de 1983. O julgamento dos mandantes do assassinato, adiado
sete vezes, foi realizado no dia 18 de junho deste ano e o principal
acusado de ser o mandante do crime foi absolvido. A Promotoria deverá
recorrer desta decisão.
No estado de Alagoas,
o problema é o mesmo. Nos três primeiros meses de 2001
ocorreram 23 conflitos de terra no estado que só perde para
Pernambuco outro estado do Nordeste onde ocorreram
27 conflitos. Em Alagoas a Federação da Agricultura
usa os mesmos métodos dos fazendeiros da Paraíba.
Os fazendeiros alagoanos têm seus próprios jagunços
que, às vezes, cedem por empréstimo a outros fazendeiros,
inclusive de outros estados. Armar-se para combater a reforma agrária
é regra e não exceção, em Alagoas.
[1]
Assessora de Comunicação da Comissão Pastoral
da Terra (CPT).
[2]
Integrante do Programa de Intercâmbio entre a Comissão
Pastoral da Terra (CPT) e a Foodfirst Information and Action Network
(FIAN).
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