OS
ÍNDIOS DO BRASIL ENTRE PROTEÇÃO E CORRUPÇÃO
A
ganância já histórica da população
branca e o direito de viver dos povos indígenas marginalizados
Heinz
F. Dressel, Julho 2004
Em
2003, ao surgir um governo composto por siglas da esquerda brasileira,
recebi uma carta do Brasil, que começou com a frase:
"O país está na maior euforia com o novo
Presidente." Também os povos indígenas depositaram
sua esperança no "mito Lula". O entusiasmo
dos índios, porém, logo cedeu lugar à perplexidade
diante de um clima de desrespeito, de agressividade e de uma
onda de ódio e violência contra os povos indígenas
em todo o país. Conforme nota publicada por CIMI (6/11/03)
a primeira vítima foi Aldo Makuxi, na terra indígena
Raposa Serra do Sol/Roraima. "Ele foi covardemente assassinado,
no dia 2 de janeiro, por invasores. Logo em seguida tombaram
Marcos Veron Guarani Kaiowá, Leopoldo Kaingang, Josenilson
José dos Santos Atikum, José Admilson Barbosa
da Silva Xukuru. Este foi um processo de violência bem
maior do que o ocorrido nos governos anteriores. Nesses dez
meses já foram assassinadas 23 lideranças indígenas
em todo o país."
Os
astros não indicavam tempos mais pacíficos. O
novo ano trouxe consigo bastante inquietação entre
diversos grupos de indígenas. Os caiovás invadiram
a Fazenda São Jorge e depois ocuparam mais 13 propriedades
rurais. Um dos guerreiros foi atingido por um tiro. Em resposta,
os índios se pintaram para a guerra, apreenderam um ônibus
e feriram uma passageira. Alguns membros do povo indígena
pataxós há-há-hãe, da Aldeia Caramuru-Paraguaçu,
a 550 km de Salvador, ocuparam uma sala da Secretaria de Educação
na capital, reivindicando transporte escolar para os jovens
da aldeia que, para frequentar a escola, precisavam caminhar
35 km. Também pediram a contratação e qualificação
de mais professores. Um líder indígena da etnia
Ashaninka, do Acre, denunciou a invasão das terras por
madeireiros peruanos e defendeu a reação hostil
dos nativos com a observação: "Estamos cuidando
de um território que na verdade é terra do Brasil."
A FUNAI declarou que foi montada uma força-tarefa para
expulsar 300 madeireiros que se estabeleceram na região
para extrair madeiras nobres.
No
mês de abril uma notícia alarmante falou de um
clima de tensão no interior de Rondônia onde dentro
da reserva indígena do Roosevelt a polícia descobriu
29 corpos de garimpeiros massacrados a golpes de bordunas, tacapes
e lanças. O governador do estado disse tratar-se de "um
massacre". O presidente da FUNAI, por sua vez, tentou explicar
assim o triste incidente: "Vejo com preocupação
um governo que tem obrigação de zelar pela paz,
que deveria apaziguar os ânimos da população,
tentando encontrar bode expiatório e falso culpado em
um momento de tanta dor para as famílias".
Índios
e garimpeiros convivem na reserva há três anos.
A relação foi longe de ser pacífica por
causa da disputa pelo comércio ilegal de diamantes. Em
1999, foi descoberta uma gigantesca jazida de diamantes na região.
Desde então, os conflitos se tornaram cada vez mais freqüentes.
Em 2003, pelo menos quatro mineradores foram assassinados pelos
cintas-largas, que também tiveram algumas de suas lideranças
mortas no decorrer deste período. A FUNAI fala em pelo
menos 30 pessoas, que já foram assassinadas na reserva.
A vítima mais recente, Moisés Cinta Larga, de
14 anos de idade, filho do cacique Aperitite Cinta Larga, foi
executado com dois tiros.
Como
informou a Folha de São Paulo, índios venderam
diamantes extraídos da reserva para contrabandistas e
receberam armas de fogo - carabinas - como pagamento. O contrabando
entrou pelas três pistas de pouso dentro da reserva em
pequenos aviões que levaram diamantes. A negociação
com três líderes cintas-largas teria sido feita
com o empresário Marcos Glikas, preso desde março.
O contato dele com os índios era intermediado por um
servidor da FUNAI. Participaram da quadrilha também três
policiais, um delegado e um agente civil. Outro membro da polícia
recrutou "mulas" para transportar os diamantes. As
pedras, vendidas em São Paulo, eram, então levadas
para os Estados Unidos, Israel e Bélgica. A extração
era feita por garimpeiros arregimentados pelos próprios
índios. Os garimpeiros na reserva, ao encontrar as pedras,
davam um percentual para os índios, que chegou a equivaler
o correspondente de 50% do valor obtido na venda. José
Carlos de Santana - Guajará-Mirim (RO), na edição
da Tribuna da Imprensa do dia 29.4.04, comenta: "Morreram
29 de um lado e do outro nem um arranhãozinho foi denunciado.
Não teria sido uma queima de arquivos? Observe que não
restou nenhum garimpeiro ferido, todos morreram." De fato,
uma estória meio estranha!
Qual
foi a atitude das autoridades federais e estaduais?
O
ministro da Justiça, informou que o governo federal realizará
uma "operação de desarmamento geral"
de índios e garimpeiros no sul de Rondônia para
evitar mais derramamento de sangue. Cerca de 200 homens, policiais
federais e funcionários da FUNAI, foram destacados para
iniciar a operação.
Resta
dar atenção à questão jurídica.
Pela Constituição brasileira, as reservas minerais
do subsolo são patrimônio da União e, quando
em áreas indígenas, só podem ser exploradas
com autorização do Congresso. Ignorando o aspecto
legal, cada vez mais garimpeiros começaram a chegar na
região. Calcula-se, que eles já somam entre 5
e 6 mil homens. Desde 2001, foram realizadas quatro grandes
operações de expulsão de garimpeiros, que
freqüentemente entram em confronto com os índios.
Apesar da afirmação do presidente da FUNAI, de
que a situação estaria controlada, com todos os
garimpeiros retirados da região, percebe-se uma conivência
do governo estadual, que tem estimulado a exploração
ilegal na reserva indígena, cedendo à pressão
de grupos econômicos. Isso significa que a invasão
da região pelos garimpeiros continuará.
Segundo a FUNAI, o DNPM já foi acionado pelo governo
para localizar jazidas fora da reserva para entregar aos garimpeiros,
mediante concessão de exploração. Há
também rumores indicando que o Ministério da Justiça
estaria estudando uma forma de regulamentar a garimpagem, que
seria realizada exclusivamente pelos índios. Tudo, porém,
indica, que o "Lobbying da cobiça" não
passou sem deixar seus rastros na legislativa. Foi esta a impressão
que os observadores do CIMI tiveram durante o período
do acampamento de representantes dos povos indígenas
na capital do país, Brasília, por ocasião
do "Dia do Índio" nos mês de abril 2004.
Como observou o representante do CIMI, Egon D. Heck, na capital,
em frente ao Ministério da Justiça, naquela ocasião
chegaram algumas dezenas de guerreiros da Terra Brasil. Em menos
de uma hora, nove barracos estavam plantados a pouco mais de
50 metros do Palácio da Justiça. Era o acampamento
indígena Terra Livre, Já!
Os
indígenas solicitaram uma audiência com o Presidente
da República. Não deu! Queriam então ser
ao menos ouvidos pelos responsáveis do destino da nação.
Do lado dos detentores do poder, o silêncio prepotente.
De todos os pedidos feitos a vários ministros como ao
presidente Lula, nenhuma confirmação. No dia seguinte,
centenas de pessoas solidárias com a causa indígena,
chegaram para somar sua voz e indignação com a
dos guerreiros acampados. Don Tomás Balduíno,
presidente da CPT (Comissão Pastoral da Terra), veio
trazer a solidariedade das pessoas cristãs, que lutam
por justiça, reforma agrária, terras indígenas
demarcadas e respeitadas e o aprofundamento da democracia. É
dos tempos da Declaração de Barbados (1971), a
opção da CNBB, na gestão dos grandes estatistas
Dom Ivo Lorscheider, D. Pedro Casaldáliga e D. Geraldo
de Proença Sigaud, através do Conselho Indigenista
Missionário (CIMI), de zelar para que as comunidades
indígenas e principalmente suas terras fossem respeitadas
e demarcadas.
Dentro
do Congresso, "os representantes indígenas das diversas
regiões do país, contemplam diáriamente,
com perplexidade e revolta, as ameaças a seus direitos
que aí dentro são tramadas por seus inimigos declarados,
por vezes disfarçados em patriotas e desenvolmentistas,
com discursos hipócritas e interesses pessoais, de prestígio,
poder e dinheiro", como consta uma nota emitida por Egon
D. Heck - Cimi Norte (17.04.04), (aliás um dos mais experimentados
membros do CIMI com quem já em 1990 me encontrei em Manaus,
levando de lá uma entrevista gravada que foi publicada
no Boletim Informativo da Obra Ecumênica de Estudos Bochum
no. 50, 9/1990). Foi nesta casa que os indígenas foram
chamados de "fedorentos" por um dos parlamentares,
presente na comissão que pretende reduzir a Terra Indígena
Raposa Serra do Sol. Vaia e difamação do índio,
como se encontram também na mídia, até
na Tribuna (29.4.04) onde Pedro Porfírio se atreveu a
expressar todo preconceito que sente em relação
aos indígenas, ao falar do cacique Pio Cinta-Larga como
o que "adora um perfume francês, camisa de grife
e camionetes importadas", identificando-o como membro da
"tribo de contrabandistas de diamantes", dos "espertos
cintas-largas, que movimentam mais dinheiro do que qualquer
município da Amazônia, que têm contato direto
com o que há de pior no mundo do crime organizado, sob
as vistas grossas da Funai com a cumplicidade de policiais."
Esta canção de ódio termina com o credo
que frequentemente se reza também dentro do Congresso:
"Não há quem me convença de que é
bom para o Brasil, bom para a humanidade fechar 96 mil quilômetros
de território riquíssimo para 12 mil ianomâmis."
A homologação da Terra Indígena Raposa
Serra do Sol pelo presidente da República está
sendo aguardada há 5 anos. Lula pediu mais tempo. Até
quando? Quantos índios terão ainda que ser assassinados,
presos, ameaçados para que se cumpra o que determina
a Constituição? Isso aconteceu às vésperas
da comemoração do "Dia do Índio".
O
"Dia do Índio" foi marcado por protestos no
Congresso. Os índios foram à Câmara para
participar da comemoração, mas no meio da homenagem
resolveram ficar no plenário. "Não queremos
mais ser homenageados, queremos que Lula diga, com clareza,
de que forma vai tratar a política indigenista",
disse Sateré-Mawé. "Ou o governo fica do
nosso lado ou fica do lado dos políticos corruptos de
Roraima", completou.
Os
índios resolveram fazer pressão. Conseguiram que
se realizasse um encontro com "as autoridades" no
congresso; mas logo chegou a primeira desilusão: "Não
viemos aqui para falar com assessores. Queremos falar com Lula",
disse em voz incisiva Agnelo Xavante, "Lula lutava pelos
povos indígenas e hoje está calado. Nós
queremos abrir a boca dele para que ele volte a lutar pelos
pobres". Enquanto os índios ocupavam o Salão
Verde, alguns dos deputados criticavam o presidente da FUNAI,
pedindo o seu afastamento do cargo. Este afirmou que os índios
cintas-largas, ao matarem dezenas de garimpeiros, estavam apenas
reagindo às invasões de suas terras. "O presidente
da FUNAI ao invés de tentar pacificar os conflitos, de
agir como bombeiro, joga litro de querosene no fogo", disse
Lindberg (PT-RJ). A principal manifestação contra
o governo ocorreu na Câmara, onde cerca de 70 índios
de 28 povos ameaçaram acampar no plenário em represália
à demora do presidente Lula em homologar a reserva indígena
Raposa Serra do Sol, em Roraima.
Por
fim, os índios concordaram em deixar o plenário
com a promessa de que Lula iria recebê-los. Gilberto Carvalho
avisou que Lula não poderia receber os índios
nem neste dia, nem no dia seguinte. Os nativos só desocuparam
o lugar após o compromisso assumido, por escrito, de
que seriam recebidos no Palácio do Planalto para definir
uma data de encontro com Lula. O presidente receberia uma comissão
indígena de todo o Brasil no dia 10 de maio. A base da
conversa deveria ser o documento entregue pelas lideranças
do acampamento "Terra Livre". Os índios saíram
com o gosto amargo de não terem merecido a mínima
atenção do Presidente.
Em
seu Documento Acampamento Terra Livre, os representantes dos
índios articularam claramente suas solicitações:
"Nós, povos indígenas unidos e presentes
no acampamento Terra Livre, na Esplanada dos Ministérios,
em Brasília, vimos manifestar ao povo brasileiro e às
pessoas de todo o mundo, os nossos pensamentos, projetos, sonhos
e a nossa luta pela justiça e a defesa dos nossos direitos
constitucionais. A terra é a nossa vida. Fonte e garantia
da sobrevivência física e cultural. Por isso é
urgente a regularização fundiária de todas
as terras indígenas no Brasil. Os nossos direitos estão
ameaçados por pressão de grupos econômicos
e políticos com o objetivo de mudar os artigos da Constituição
que amparam os nossos direitos. Se isso vier a acontecer, veremos
no governo Lula a abertura de uma porta para o extermínio
físico e cultural de todos os povos indígenas
no Brasil. Continuamos sendo tratados com racismo, preconceito
e discriminação pelo Estado Brasileiro, quinhentos
anos depois da chegada dos primeiros exterminadores. Para muitos
ainda prevalece a máxima "índio bom é
índio morto". Assim, unidos e solidários,
apresentamos as bandeiras de nossa luta comun: Imediata homologação
da TI Raposa Serra do Sol; punição e reparação
dos danos ambientais causados no interior das terras indígenas;
atendimento básico de saúde aos povos indígenas;
garantia de uma educação diferenciada; punição
dos assassinos responsáveis pelas dezenas de mortes que
ocorreram no biênio 2003-2004; apoio às atividades
produtivas que venham a possibilitar um desenvolvimento sustentável
pelas comunidades indígenas."
A
Comissão Episcopal Especial para a Amazônia declarou-se
solidária com a causa dos defensores da TI Raposa Serra
do Sol. Trata-se de cinco povos indígenas que habitam
o nordeste do Estado de Roraima na fronteira com a Venezuela,
e que somam 15.719 índios distribuídos em 152
aldeias com população que varia de 50 a 800 pessoas.
A área recebe o nome de Terra Indígena Raposa
Serra do Sol e foi demarcada pelo Ministério da Justiça
por portaria 820/98.
Roraima,
entre os anos de 1991 e 1996, teve um crescimento populacional
em aproximadamente 300%, e tornou-se um dos Estados que apresentou
maior elevação demográfica do país.
A história de Roraima, especialmente nas últimas
décadas, tem sido marcada profundamente pelo conflito
entre aqueles que defendem a demarcação e os outros
que são contrários a ela. Demarcar as terras indígenas
em ilhas significa não separar fazendas, estradas federais
e estaduais e sedes municipais das comunidades indígenas.
Essa proposta não é aceita pelo Conselho Indígena
de Roraima, que desde 1981 vem reivindicando a demarcação
em áreas contínuas.
O
primeiro ato administrativo de demarcação do território
indígena tem a data de 16/10/1917. No entanto, as terras
foram sendo invadidas por fazendeiros, garimpeiros e outros
ocupantes não-índios. Os mais recentes são
os plantadores de arroz. Tem sido constante a violência
contra os índios, com espancamento, tortura e morte.
Constata-se completa impunidade dos agressores. Os artigos 231
e 232 da Constituição Federal Brasileira de 5/10/1988,
garantem aos índios a posse permanente e o uso exclusivo
da terra onde vivem. Infelizmente, em vez de reinar paz e calma
na região não cessam os ataques, as acusações
e violências. Chega-se até a bloquear estradas,
a ameaçar e seqüestrar missionários que atuam
nessas áreas indígenas. "Embora já
em 1998 fosse possível ao presidente Fernando Henrique
Cardoso homologar a demarcação, a partir de junho
de 1999 ele fez uso de decisão liminar do ministro Aldir
Passarinho Júnior, do Superior Tribunal de Justiça,
concedida em Mandado de Segurança impetrado pelo estado
de Roraima, que suspendeu os efeitos da Portaria n.º 820/98
... No final de seu mandato (27/11/02), o Superior Tribunal
de Justiça extinguiu este Mandado de Segurança,
mas como era fim de governo, não se envolveu com o problema
empurrando a decisão para o próximo presidente."
(Nota do CIMI sobre a situação da TI Raposa Serra
do Sol, 18/05/04). Acontece - peça mestre no palco da
politicagem - que o governador de Roraima filiou-se ao Partido
dos Trabalhadores (PT) e a bancada federal de Roraima na Câmara
dos Deputados e no Senado passou a compôr a base de sustentação
do governo Lula. No mesmo período, a Presidência
da República devolveu ao Ministério da Justiça
o processo administrativo de homologação da TI
Raposa Serra do Sol, alegando ser necessário o reexame
pelo Ministério da Justiça. Este, após
visitar a terra indígena, ainda no primeiro semestre
de 2003, se posicionou favoravel à homologação
devolvendo o processo ao presidente da República. Desde
então Lula vem prometendo homologar, mas não define
data. Justifica a demora em razão de estudos necessários
para elaborar um plano de compensação ao estado
de Roraima. Em março de 2004, um juiz federal de Roraima
deferiu liminar suspendendo parcialmente os efeitos da Portaria
n.º 820/98. Ao mesmo tempo, na Câmara dos Deputados
e no Senado aconteceram movimentações de parlamentares
contrários à homologação."
Assim sendo, duas comissões externas constituídas
para verificar "in loco" o processo de homologação
da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, apressaram-se
em apresentar relatórios contra a homologação.
"No Palácio do Planalto começou a ser divulgado
um entendimento jurídico de que o presidente Lula estaria
impedido de homologar a demarcação de Raposa Serra
do Sol, em face de decisão do juiz de Roraima."
(CIMI 18/05/04)
A
CNBB manifestou seu apoio, "para que os Poderes constituídos
do Brasil concedam futuro de paz e vida digna aos povos indígenas
que são os legítimos donos da Terra Raposa Serra
do Sol. A decisão do presidente da República virá
assim resgatar em Roraima a dívida histórica em
relação aos primeiros habitantes, vítimas
da cobiça e da violência de tantos invasores. É
hora de consolidar nossa democracia, com sua riqueza étnica
e cultural, e acreditar no futuro das comunidades indígenas
e do desenvolvimento sustentável que promovem . A solidariedade
fraterna e cristã com respeito e estima ao pluralismo
étnico e cultural no Brasil, atrairá as bênçãos
de Deus a fim de que haja tempos novos de justiça e paz
para todos." (Dom Luciano Mendes de Almeida, Arcebispo
de Mariana, 28/03/04)
Em
Roraima vivem 50 mil índios de quatro etnias diferentes.
Eles ocupam 50% do território do Estado. Outra área
assolada por conflitos é a reserva Kayapó, no
Sul do Pará. Mesmo demarcada e homologada, a área
sofre com a invasão de garimpeiros. Em Mato Grosso do
Sul, estado que abriga 40 mil índios, continua o impasse
para a revisão de limites da reserva Porto Lindo, onde
3 mil índios guaranis dividem 1.649 hectares.
Permitam-me
uma breve retrospectiva: foi decisão do governo Médici
de empurrar o processo da solução da questão
das terras indígenas, como da situação
do índio brasileiro em geral, através da Lei de
N° 6001, de 17/12/1973, conhecida como Estatuto do Índio.
Dos 68 artigos 22 referiam-se a questão das terras indígenas.
Estabeleceu-se um prazo de 5 anos para terminar a demarcação
de todas as terras indígenas. Da publicação
desse "Estatuto do Índio", em pleno governo
Dutra, passando por Getúlio, Café Filho, Kubitschek
e assim por diante, nada foi feito, como afirmou meu colega
e amigo P. Kurt Benno Eckert em sua carta do mês de fevereiro
de 2004: "Deve ter sido nos anos de 1946 ou 1947, quando
em Santa Rosa um advogado queria me vender uma fazenda de um
tamanho de 1000 ha. situada na região do rio Juruena,
Mato Grosso. O preço era equivalente a 5 ou 6 salários
mensais meus. O negócio teria sido factível. Perguntei:
Mas, não é assim que ainda têm índios
lá? Ele respondeu que o governo os assentaria em qualquer
lugar. Eu disse que não teria vontade de me esconder
na selva, mas ele chamou atenção de que a coisa
seria uma ótima possibilidade de aplicar o dinheiro da
gente. Foi justamente isso que muitos pensaram na época.
Nem quero acusar o governo, mas estou acusando certos funcionários
corruptos, que deixaram-se subornar e que desta maneira vendiam
por uma ninharia vastas regiões do país."
No
meu próprio arquivo guardo um anuncio de jornal muito
significativo da época de Juscelino Kubitschek de Oliveira:
COLONIZADORA
NOROESTE MATOGROSSENSE LTDA.
Existência nova! Proteção contra a devaluação
da moeda!
CONOMALI, empresa afiliada à Emprêsa Mayer S/A
organiza desde o começo do ano de 1955 na zona das enormes
matas no norte de Mato Grosso o famoso empreendimento de colonização,
a GLEBA ARINOS.
Terras férteis, boas condições de água
e um agradável clima sem geada permitem o cultivo de
todas as culturas nacionais e também de plantações
de alto valor, como café, pimenta, cacau e borracha.
Desenvolvimento sistemático da gleba, acompanhado de
toda espécie de assistência técnica, farmácia
e médico, escola estadual, previdência eclesiástica-religiosa.
No espaço de 2 anos foram construidas 100 km de novas
estradas; cada colonia está ligada à uma estrada
transitável e dispõe de água corrente;
favoráveis prestações de pagamento; constante
chegada de novas caravanas de colonos.
Todas as informações e prospectos junto à
CONOMALI, Porto Alegre, situada na casa da Transportadora Mayer.
[Korrespondenzblatt, Hrsg. von den Freunden des Pfarrerbundes
(União de Ministros na Igreja Evangélica de Confissão
Luterana no Brasil) Nr. 8/9, 3. Jhg., August/September 1959]
Voltando
ao caso de Roraima, no encarte Conjuntura Social ... - N1 721,
a CNBB declara-se solidária aos indígenas de Roraima.
"Há mais de um ano a presidência da CNBB vem
acompanhando de perto as tensões em torno da homologação
da área Raposa Serra do Sol. Lá estão muitos
povos indígenas. Por se colocar decididamente ao lado
dos povos indígenas em suas lutas por seus direitos constitucionais,
missionários e missionárias deram sua vida, sofreram
e estão sofrendo violências, calúnias e
ameaças. Agora, após mais uma afronta e agressão
aos missionários, seqüestrados e ameaçados,
com danificação material do prédio da missão,
fomos a Roraima para dizer que os bispos da Igreja Católica
no Brasil, por meio de sua presidência, estão solidários
à igreja local, ao seu bispo, Dom Aparecido José
Dias, aos missionários e missionárias, especialmente
os que atuam com os povos indígenas. Queremos aqui também
manifestar nossa solidariedade para com todos os povos indígenas,
em especial pelas vítimas de violências e agressões.
Na área indígena Raposa Serra do Sol vivem mais
de 15 mil indígenas. Esperamos que brevemente Roraima
possa, com justo orgulho, ser o Estado brasileiro com maior
proporção de território indígena.Desejamos
ardentemente que as demais questões de terras indígenas
em todo o país sejam resolvidas em breve tempo, para
que o Brasil possa ter a honra de consolidar sua democracia
dentro da pluralidade étnica e cultural que o caracteriza."
(Geraldo Majella Agnelo, cardeal-arcebispo de Salvador-BA, presidente
da CNBB).
Centenas
de entidades, organizações, movimentos sociais
e pessoas comprometidas com a causa dos povos indígenas
no Brasil, também manifestaram sua preocupação
com a demora do Governo em homologar a TI Raposa Serra do Sol.
Expressaram sua apreensão em relação às
articulações de grupos políticos, que têm
interesses econômicos naquela terra e buscam inviabilizar
sua homologação em área contínua,
com o objetivo claro de proteger interesses particulares de
invasores, a exemplo de rizicultores que se instalaram no local
mesmo depois da definição dos limites do território
tradicional.
Há
cinco anos esta terra indígena está demarcada
administrativamente (Portaria 820/98), mas não foi homologada
até agora em conseqüência de pressões
políticas. Nos últimos 30 anos, tornou-se um caso
emblemático da luta dos povos indígenas pela garantia
da própria terra. Índios foram mortos em disputas
pela posse da terra e dezenas foram espancados, torturados ou
presos ilegalmente, sendo que jamais os agressores foram condenados.
Em janeiro, plantadores de arroz, fazendeiros e empresários
locais lideraram atos violentos numa campanha de terror contra
a homologação que culminou com o seqüestro
de três missionários, bloqueio de estradas e invasão
da FUNAI. Os povos indígenas estão frustrados
com o governo federal por não ter a coragem de enfrentar
uma situação histórica de desrespeito aos
povos indígenas do Brasil. Diante destes fatos, dezenas
de entidades manifestaram seu posicionamento favorável
à homologação de Raposa Serra do Sol. Se
o Presidente Lula não homologar imediatamente a Raposa
Serra do Sol estará demonstrando, diante da opinião
pública nacional e internacional, o seu completo descaso
com os povos indígenas no Brasil. (31/03/2004)
Em
sua mensagem (Brasília, 07/4/2004), o CIMI afirma que
"Com a apresentação dos Relatórios
das Comissões Externas da Câmara dos Deputados
e do Senado Federal sobre a questão da Raposa Serra do
Sol, cresceu a pressão dos segmentos políticos
e econômicos contrários à homologação
da demarcação."
A
Associação Brasileira de Antropologia (ABA) enviou
ofício ao Presidente Lula em defesa da homologação
contínua da Área Indígena Raposa Serra
do Sol, chamando atenção para a situação
dos Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang, Patamona,
vítimas de toda sorte de violência na região,
solicitando, também, que o governo ponha fim a um foco
de tensões, que a demora na homologação
só tem levado a incrementar. "Entendemos que os
brasileiros indígenas ocupantes da região são
dela os verdadeiros guardiões", afirmam.
"Nesse
ato, que será, de certo, um divisor de águas na
ação indigenista governamental, esperamos ver
que a intensa campanha mantida até agora por forças
sociais freqüentemente marcadas pelo racismo, pelo desejo
de manutenção de privilégios, que têm
assegurado as desigualdades sociais, pelo desconhecimento do
Estado de Direito em nosso país e do caráter pluriétnico
da nação brasileira, encontrará finalmente
resposta à altura e digna da proposta de governo de V.
Excia." (Gustavo Lins Ribeiro, Presidente, 12/04/2004)
No
dia 10 de maio, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
recebeu no Palácio do Planalto representantes de 25 etnias,
que entregaram um documento pedindo a demarcação,
até 2006, de todas as terras indígenas; a criação
de uma secretaria para atender as atribuições
do movimento indígena; e a implementação
de uma política especial de proteção à
educação e saúde. O chefe Tapeba disse
que um dos assuntos mais discutidos com o presidente foi a homologação
da área Raposa Serra do Sol, em Roraima. Obviamente não
há ainda decisões, mas Lula sinalizou aos índios
que a demarcação da área acontecerá
em breve. Ele garantiu que vai atender às reivindicações,
mas pediu paciência aos índios. Lula pediu confiança:
"Eu gostaria que vocês compreendessem também
que nós do governo não vamos medir nenhum esforço
para fazer as coisas que têm que ser feitas", mas
ressalvou que "existe um processo" até que
as ações se consolidem: "Hoje está
muito mais fácil para todo o conjunto do governo ir tomando
posição do que estava há seis meses atrás."
No
que se refera ao fabuloso "processo" que existe, deve
tratar-se, de fato, como já disse D. Thomaz Balduino
há 30 anos "de simples palavreado": "As
tribos da Região Norte de Roraima, que de tempos memoriais
ocupam aquela região da fronteira com a Guiana e a Venezuela,
encontram-se hoje praticamente sem terra, com suas áreas
invadidas pelas fazendas de gado. A FUNAI tomou claramente o
partido dos fazendeiros locais." (Boletim do CIMI N°34,
ano 06, Brasília 1977).
A
FUNAI apoiou abertamente os fazendeiros que haviam sido instalados
irregularmente na Reserva Indígena São Marcos,
área indígena de 630 mil hectares, já demarcadas
na época pelo próprio Marechal Rondon (!).
Como
bem sabemos, há no país ainda mais indígenas
que esperam um futuro que vale à pena! "O Brasil
é habitado por 230 povos indígenas, o que corresponde
a uma população de, aproximadamente, 350.000 pessoas,
falando cerca de 170 línguas. Estes povos vivem em territórios
tradicionais que totalizam 12% do território nacional.
A maior parte dessas terras está localizada na região
amazônica, compreendendo 20% da superfície daquela
Região." (Lúcia Fernanda Inácio Belfort,
ex-bolsista Kaingang da UNIJUÍ, atualmente fazendo o
doutorado na UNB)
Toda
esta gente precisa de terra para sobreviver! Infelizmente, a
opinião pública, que se baseia, em primeiro lugar,
nos interesses econômicos do mundo branco, seja nacional,
internacional ou multinacional, abertamente favorecido pelos
governantes, não reflete a mínima sensibilidade
por este ponto de vista. É fato reconhecido, que os chefes
políticos do então "Território"
sempre foram a favor dos pecuaristas, que a todo instante expulsavam
as populações indígenas de suas terras.
Lembra-se
Dorival de Magalhães (O Exército é Amigo
dos Índios, Jornal Folha de Boa Vista RR, 7/4/2001, pg.
02, coluna opinião) de uma conversa entre o então
governador do Território Federal de Roraima e um modesto
morador indígena:
Governador
- Estou aqui na tua maloca para te dizer que tu deves sair daqui
o mais urgente possível.
Tuxaua - Por que seu Governador?
Governador - Porque aqui é terra de pecuária.
Tuxaua - Mas meus avós morreram aqui.
Governador - Não estou perguntando nada. Você e
sua gente têm que sair daqui. Vão embora para a
mata. Lá é que é lugar de índio.
Na próxima segunda-feira eu vou mandar um caminhão
para fazer a mudança de vocês. Não quero
índio por aqui.
O
mundo branco insiste no pensamento de que Roraima é "muita
terra para pouco índio". Há também
outro ditado popular que se encontra no cotodiano da região:
"Terra sem gado é terra que não possui dono".
Essa é uma daquelas ideologias que se utiliza para se
aproveitar das terras indígenas ou para impedir a demarcação.
Tinha
um Coronel de nome Pagano, que numa palestra a uma platéia
de estudantes de ciências sociais na UNB em outubro de
1981, afirmou: "A expulsão dos índios é
inevitável. Nós não temos que reservar
grandes áreas aos índios, pois eles não
têm como defendê-las. A expansão nacional
é um fato, mesmo as regiões que não existem
colonos, amanhã existirão e são eles que
levam o progresso. O índio não utiliza seu território,
não o preserva e, sobretudo não produz."
(Jornal Opinião, São Paulo, 19 -24/10/81) E aí
já entramos no terreno acidentado da Segurança
Nacional, e voltamos diretamente ao fabuloso "processo"
mencionado pelo presidente Lula da Silva na audiência
concedida aos representantes dos indígenas no dia 10
de maio.
É
de conhecimento geral, que as Forças Armadas, por motivos
de Segurança Nacional, são declaradamente contrárias
à homologação das terras indígenas.
Em conseqüência disso, a respectiva autoridade jurídica
decidiu "excluir da área indígena Raposa
Serra do Sol, até julgamento final da demanda, as seguintes
áreas: faixa de fronteira, até que seja convocado
o Conselho de Defesa Nacional, para opinar sobre o efetivo uso
das áreas localizadas na faixa de fronteira com a Guiana
e Venezuela; e a área da unidade de conservação
ambiental Parque Nacional Monte Roraima." (Nota do CIMI
sobre a situação da Terra Indígena Raposa
Serra do Sol, 18/05/04)
Desejamos
com este pequeno relatório contribuir para que o apelo
dos povos indígenas Yanomami, Wai Wai, Guarani, Tupinambá,
Kaingang, Xavante, Tucano, Tapuia, Pataxó Há Há
Hãe e outros, articulados no Documento Acampamento Terra
Livre, em Brasília, alcance não apenas o povo
brasileiro, mas também "as pessoas de todo mundo".
Literatura: