IN
MEMORIAM MARIA AUXILIADORA BARCELOS LARA
H. Dressel
Há
poucos dias estivemos em Berlim, aproveitando a ocasião
para visitar uns lugares onde em meados da década 70 andava
nossa amiga brasileira Maria Auxiliadora Barcelos Lara. Na época
ela foi bolsista do Programa Ecumênico de Bolsas de Estudos
mantido pela Igreja Evangélica da Alemanha. Visitamos entre
outros lugares a Casa de Estudantes na romantica Mollwitzstrasse
em Berlin-Charlottenburg, onde a Dora como também outros
refugiados brasileiros moravam; fizemos um pulo ao Hospital em
Berlin-Spandau, onde há quase um quarto de século
tinha visitado a estudante de medicina, que naquele momento ficava
mesmo internada lá. Finalmente, busquamos aquela idílica
igreja de Berlin-Neu Westend, onde no dia 15 de junho de 1976
tinhamos a triste incumbência de conduzir o Ato de Comemoração
em memória da jovem exilada.
Confesso
que, ao lembrar-me de novo dos detalhes da triste história
de nossa falecida estudante Maria Auxiliadora Barcelos Lara -
todo mundo a chamara de Dora - não posso evitar
que, dolorosamente comovido como há 23 anos atraz, me correm
as lágrimas pelo rosto, e me dóe o coração
como naquele dia - 1 de junho de 1976 - quando fui informado do
incidente chocante que nos parecia incrível.
Foi
em meados de Fevereiro de 1974 que - através dos bolsistas
Gastão e Jussara Heberle - tomei conhecimento da chegada
duma turma de brasileiros na cidade de Colônia, que tinha-se
refugiado temporáriamente no México depois de ter
escapado da caça aos "estrangeiros comunistas"
que logo depois do golpe de setembro havia começado em
Santiago de Chile.
Na
época dirigí uma instituição da Igreja
Evangélica da Alemanha, Obra Ecumênica de Estudos-
ÖSW - e fui responsável pelo setor de bolsas para
estudantes graduados provindos dos países do Terceiro
Mundo, e, tradicionalmente incluía-se no programa
de bolsas também estudantes refugiados, que depois do golpe
militar em Chile não fizeram falta na Europa.
O
hemisféreo latino-americano naqueles anos tinha passado
por graves convulsões. Salvador Allende, ainda senador,
tinha uma vez observado: "A revolução cubana
é uma revolução nacional - mas ao mesmo tempo
uma revolução da América Latina inteira.
Ela indicou o caminho à libertação de todos
os nossos povos." Assim foi.
A
juventude de orientação esquerdista sentiu-se iludido
pelo imobilismo dos comunistas ortodóxos e pela política
de acordos com as forças democráticas da burguesia
que tinham tomado posição contra o imperialismo
e contraa oligarquia. Muito ao contrário do comunismo ortodóxo,
que tinha optado pela ordem, a juventude mostrou-se atraída
pela esquerda radical-revolucionária com sua retórica
da luta armada, inspirada pelas utopias do fidelismo e do maoísmo,
e optou pela luta armada, antes de tudo pela guerrilha urbana.
Através dos escritos de Ernesto Che Guevara e de Régis
Debray entrou a teoria do foco acompanhado pela idéia da
primazia do fator militar sobre o fator político.
Sem
dúvida, o impulso mais importante para a juventude foi
o míto de Che Guevara. Em 10 de março de 1967 a
imprensa informava sobre o primeiro encontro armado na selva de
Bolívia. Logo depois, no dia 20 de abril, o jornalista
e simpatisante francês Régis Debray foi preso, e
em 7 de junho decretou-se o estádo de sítio em todo
território boliviano até o momento em que o exército
assumiu o controle sobre o governo de Bolívia, no mês
de julho. Em 8 de outubro de 1967 Che Guevara foi fuzilado na
região da cordillera.
O
fracasso imediato do profeta da teoria de foco, do ídolo
da juventude latino-americana, Che Guevara, não prejudicou
a euforia revolucionária vigente na época: O míto
de Che Guevara, Ho Chi Minh e Mao Tse Tung ganhou terreno entre
os estudantes em todo mundo, de Berkeley, Paris, Berlin, Buenos
Aires, Rio de Janeiro, Santiago de Chile, Lima, La Paz, Bogotá
e Guatemala-City. Che tornou-se "a grande esperânça
da vanguárdia em toda América Latina. Ele tornou-se
multiplicador de revoluções." (Eduardo Galeano).
Apesar de ser morto ele não perdera nada de sua fascinação.
Sobreviveu como o míto da geração do ano
68" da América Latina. "Haviamos predito
que a guerra seria continental. Isto significa que também
será prolongada; haverá muitas frentes, custará
muito sangue, inúmeras vidas durante um longo tempo ao
produzir-se a tomada do poder pela vanguarda armado do povo terá
se cristalizando a primeira etapa da revolução socialista
" diz Che Guevara nos Textos Revolucionários.
Na
Conferência da Organização Latino-Americana
de Solidariedade (OLAS) que tomou lugar em Havana entre os dias
de 31 de julho e 10 de agosto de 1967, participou também
Marighella, que voltou com a mensagem, que o momento não
era para debates, mas que a hora era da luta armada, da guerra
popular.
Era
isto, que também a Dora declarou na entrevista de Havana
(Casa de las Américas Mayo-Junio 1972 Año XII N.72
La Habana, Cuba, Testemonio, Brasil: reporte sobre la tortura
[Saul Landau]): Disse, que o grupo dela em 1968 tinha escolhido
a insurrecão armada, "porque los métodos pacíficos
o la actividad política no pueden utilizarse como los principales
medios en Brasil hoy. Sólo lucha armada dará resultados
cuando se trate de organizar al pueblo y de formar un ejército
popular. Lo que pasa es que los métodos violentos que utilizamos
para luchar contra la dictadura militar brasileña no son
el resultado de una decisión gratuita por nuestra parte,
sino más bien la consecuencia de la política gobernamental
antidemocrática, que nos ha impedido, desde 1964, participar
en el proceso político brasileño, en una campaña
pacífica por el desarrollo del Brasil. No se puede poner
en duda el hecho de que el grupo de los líderes militares
brasileños, al servicio de intereses extranjeros, ha estado
en el poder desde el golpe de 1964. Es decir, el gobierno nos
impedió enfrascarnos en procesos políticos pacificos.
Si hoy hemos tenido que recurrir a las armas en el Brasil, no
es porque seamos asesinos, como proclaman los que están
en el poder, sino a causa de la política criminal de este
gobierno hacia los brasileños."
Jacob
Gorender (COMBATE NAS TREVAS A ESQUERDA BRASILEIRA das ilusoes
perdidas à luta armada) consta, que em 1968 registraram-se
onze assaltos à agências bancárias, cinco
à carros pagadores e um trem pagador em São Paulo,
e até meados do ano seguinte já eram atacadas mais
31 agências bancárias e um carro pagador.
No
anos 60 e 70, depois do choque cubano, e mais tarde, do choque
chileno - fatos que profundamente preocuparam todas as sociedades
latino-americanas surgiu no continente uma nova filosofia do estado,
melhor uma ideologia, baseando-se num conceito de Segurança
Nacional, proliferado pelos Estados Unidos. O conceito de Segurança
Nacional baseava-se na idéia da ameaça iminente
pelo comunismo, que terminaria numa terceira guerra mundial. Nos
países do sub-continente temia-se, antes de qualquer agressor
que podia vir de fora, o inimigo interno, típo quinta coluna
do marxismo internacional que devia ser combatida a fim de garantir
um desenvolvimento em ambiente de segurança. No Brasil,
o general Golbery do Couto e Silva fundou o SNI - Serviço
Nacional de Informação - instrumento principal da
repressão, que agiu sem nenhum limite.
As
forças cristãs-sociais nos países sulamericanos
por tradição combateram o comunismo, mas ao mesmo
tempo tomaram posição contra a ordem estabelecida
na sua respectiva sociedade. No Brasil muitos dos jovens revolucionários
emergiram das respectivas organizações da igreja
com a sua doutrina social provindo do Vaticano II. A igreja e
as suas respectivas organizações para a juventude
- JUC e JOC etc. - em termos de idealismo, radicalismo e rigor
moral na prática quase não se distinguiram dos marxistas
em cujas fileiras eles finalmente entraram. "Se exhorte con
claridad y firmeza" diz Pe. Miguel Ramondettia, "los
cristianos del continente a optar por todo aquello que contribuya
a la liberación real del hombre latinoamericano y la instauración
de una sociedad más justa y fraternal ... estoy completamente
de acuerdo en que es imprescindible para la construcción
del hombre nuevo, la existencia de una sociedad en la qual sea
abolida la propriedad privada y sean socializados los medios de
producción." (Alejandro Dorrego, Victoria Azurduy,
El Caso Argentino, Hablan sus protagonistas, México 1977).
"Tenemos un profundo respeto por los jóvenes católicos
que ya, considerando que las instancias pacíficas han sido
clausuradas, eligen el camino de las armas siguiendo el ejemplo
de San Martín, el ejemplo de "Che" Guevara y
luchan por la liberación de sus pueblos." (Pe. Carlos
Mújica) Os revolucionários enfrentaram a violência
injusta dos opressores com a justa violencia dos oprimidos e entendiam
a sua luta como defesa legítima.
A
Organização para a Solidariedade Latino-americana
- OLAS - que foi fundada no ano de 1967 em Havana, exigiu e apoiou
a luta guerrilheira, considerada necessária e fundamental
para a revolução na América Latina. No Brasil,
Celso Furtado - Subdesenvolvimento e Estagnação
- 3. ed., Rio de Janeiro 1968 entrou nos mesmos trilhos. Assim
a juventude latino-americana desilusionou-se cada vez mais com
o discurso democrático e optou pela palavra de ordem fidelista:
luchar en vez de pleitear ! No Brasil nem existiu a possibilidade
do pleito livre.
Em
1969, após três anos de estudos bem-sucedidos em
Belo Horizonte, também a Dora submergiu para a clandestinidade
na metrópole do Rio de Janneiro. Com os seus companheiros
não viu outra saída. Ironia do destino: o proprietário
de sua moradia, na qual convivia com seu namorado, era informante
da Policia. As forças de segurança fizeram uma batida.
Após dois anos de prisão o governo trocou Dora,
junto com outros 69 presos politicos, pelo embaixador suíço
Giovanni Erico Buch seqüestrado pela guerrilha urbana, e
a embarcou para o Chile. Lá, deu seqüência a
seu estudo da Medicina, e quase o havia terminado ao ter de procurar
proteção política na embaixada mexicana de
Santiago, contra os militares chilenos, após o golpe de
de setembro de 1973.
Era
de fato como Che Guevara tinha profetizado ao falar das convulsões
revolucionárias no subcontinente: custará muito
sangue, inúmeras vidas durante um longo tempo.
Encontrei
os amigos brasileiros da turma com que a Dora chegou à
Alemanha em meados de fevereiro de 1974. Tratou-se de pessoas
que já foram exilados duas vezes.
Dora
tinha sido levada para Santiago de Chile no mês de janeiro
de 1971 no contexto dum intercâmbio político. Depois
do golpe de setembro junto com seu companheiro Guarany ela conseguiu
asilo provisória na Embaixada de México. No México
eles conseguiram a permissao de entrar na Bélgica e ficar
lá entre o dia 13.12.73 e 1. 2.74. Em 10.2.74 sairam de
lá rumo à República Federal da Alemanha onde
imediatamente e com o apoio de Amnesty International solicitaram
asílo político. Sabiamos do bispo Helmut Frenz de
Santiago como era assustadora a onda de prisões no Chile,
destinada cegamente contra todas pessoas de orientação
esquerdista, antes de tudo contra os comunistas estrangeiros.
Falei
com alguns brasileiros em Colônia, e percebí como
eles estavam extremamente inseguros e assustados. Por solidariedade
humana (ou também motivado pelo sentimento da brasilidade,
bem como por motivo de zelar como cristão pela dignidade
do ser humano) convidei os afim de que se mudassem para o nosso
campus em Bochum, onde lhes garantiriamos amparo seguro, incluindo
moradia, mensualidade e a participação num curso
de alemão para graduados.
No
dia 19.2.74 a Dora e o Guarany foram inscritos como participantes
no curso de língua alemã do colégio da Obra
Ecumênica de Estudos em Bochum. Assim se criaram as pré-
condições para que eles pudessem enfrentar as primeiras
dificuldades deste seu segundo exílio.
Na
ocasião da recepção oficial dos novos bolsistas
admitidos em Abril de 1974 na minha alocução me
destinei de maneira especial aos estudantes refugiados e exilados:
"Quero
agora dizer umas palavras destinadas específicamente aos
nossos amigos que aqui se refugiaram, para encontrar segurânça
pessoal e o começo dum novo futuro: A Obra Ecumênica
de Estudos através do Programa em favor aos estudantes
refugiados deseja dar apoio humano ao homem perseguido e inquietado
por razões sóciopolíticas. A Igreja
Cristã em toda sua longa historia sempre se preocupou com
refugiados. Quero dar apenas uns exemplos: CIMADE já durante
a guerra acolheu judeus, socialdemocrátas, algerianos
e pessoas que pertenciam a outros grupos; A Igreja Clandestina
do 3er Reich surgiu essencialmente em oposição à
política antisemitista do governo alemão, e em defesa
dos cidadãos judeus; a Obra Diaconica em Stuttgart recebeu
milhares de refugiados da região de Biafra na Nigéria,
como também refugiados e desterrados proveniente de Vietnã
ou do Sudão; a Obra Ecumênica de Estudos em Bochum
protege um número considerável de brasileiros, uruguaios,
chilenos, angolanos e sulafricanos que optaram pelo exílio
em vez de arriscar a sua liberdade ou até a propria vida;
a Igreja Evangélica da Alemanha (EKD) há muito tempo
acolhe estudantes coreânos, e o Conselho Mundial de Igrejas
(WCC) apoia um elevado número de moçambicanos. Convidandolhes
para viver conosco durante os proximos meses, queremolhes
dar pelo menos a oportunidade de aprender a língua, e lhes
oferecer um ambiente humano e tranquilo. Pareceme que são
estas as precondições para um futuro concreto
para vocês e para os vossos filhos. Sei que neste país
também há muita gente com falta de compreensão
junto ao estrangeiro, com um medo irracional dos marxistas, e
há até agitadores políticos que querem tirar
vantagens políticas através da polêmica que
iniciaram contra a atitude do nosso governo socialliberal.
Mas vocês podem ter certeza de que nós da Obra Ecumênica
de Estudos aqui em Bochum sabemos que vocês não representam
nenhuma quinta coluna em nosso meio. Sabemos que vocês são
pessoas que merecem todo nosso respeito, toda nossa confiânça
e todo nosso carinho por seu espírito elevado e por sua
motivação social. Temos verteza de que voces que
não pensam em tirar vantagens próprias, mas que
se preocupam com a justiça social, que defendem a dignidade
humana e que desejam paz para os irmãos lá de além
mar. Deixemme saudarlhes em nome de todos os funcionários
da Obra Ecumênic de Estudos, e sejam bemvindos entre nós
aqui."
No
semestre de verão de 1974 o Colégio para Estudantes
Estrangeiros da Obra Ecumênica de Bochum organizou um curso
especial para os refugiados de Chile que realmente correspondeu
à situacao específica dos exilados. Foram os participantes
deste curso de língua os estudantes Maria Auxiliadora Barcellos
Lara, Julio Bittencourt, Irany Campos, Athos Magno Costa e Silva,
Aluísio Rodrigues Coelho, Marta Canedo, Miriam Vásquez
Osório, Mabel Pereira Montero, Samuel Reis, Eunice Diniz
Reis, Jaime Rodrigues, Miriam Rodrigues, Reinaldo Guarany Simões
Souto, José Jorge e Miriam Valjalo. Outros estudantes ´refugiados
latino-americanos como Antonio Canedo, Irene Reis Loewenstein,
Luiz Travassos e Marijane Vieira Lisboa devido aos seus conhecimentos
já avancados da língua alema foram admitidos ao
curso regular para graduados.
Por
ocasião da Copa do Mundo, em junho de 1974, por ordem do
governo provincial, ela e outros refugiados tinham de se apresentar
- três vezes ao dia, durante 21 dias - na Delegacia do Uni-Center
de Bochum.
Em
outubro de 1974 se matriculou na Universidade Livre de Berlim.
No mês de dezembro a Delegacia de Estrangeiros da cidade
de Berlim avisou de que fora iniciado um processo por motivo de
entrada ilegal à República Federal de Alemanha.
A partir de maio Dora foi interdita de sair de Berlim. Em julho
de 1975 expirou o documento de viagem expedido em Chile. Um funcionário
da cidade negou-se de expedir um passaporte, alegando de que isso
seria feito no momento da concessão do asílo político.
Devido a isso, Dora entrou com uma queixa na AI London.
Durante
a preparação para sua licenciatura, com a psique
gravemente abala em fevereiro de 1976 teve de se submeter a um
tratamento na clinica psiquiátrica de Spandau. Após
sua alta, continuou um tratamento ambulante. No dia primeiro de
junho atirou-se diante trem do metró, logo após
uma consulta com seu médico. Dora foi vítima duma
guerra sem perdão, desaparecendo na primavera de sua vida,
na sua juventude mesmo. No livro BRASIL: NUNCA MAIS (pg.247 f.)
pode-se ler algo sobre o inferno da tortura pelo qual Dora havia
passado durante a sua prisão no Brasil.
0
destino de Maria Auxiliadora Barcelos Lara serviu de exemplo para
a geração de jovens idealistas que na época
entraram no redemoinho político dos acontecimentos e nele
pereciam ou padeciam de graves feridas.
Para
a estatistica e para a Policia Civil, a morte de Dora foi um caso
claro de suicidio; para o jornal Bild-Zeitung, até mesmo
suicídio por crise amorosa. Na verdade, Maria Auxiliadora
foi morta por aqueles que a haviam torturado de maneira horrível,
sete anos antes, em prisões brasileiras. A enfermidade
psíquica, em 1976, sem dúvida fora conseqüência
das tormentas fisicas e psiquicas que a então moça
de 25 anos tivera de sofrer nos seus dois anos de prisão,
martírio que a levou até o limite da loucura e mais
além. Muitos já haviam morrido sob a tortura, outros
morriam em sua conseqüência e nas prisões. Maria
Auxiliadora pereceu sete anos depois, pelas desumanidades nela
exercidas.
Os
pais de Dora haviam rogado pelo traslado do corpo. Maria Auxiliadora,
por decreto do presidente Médici, fora banida perpetuamente
do Brasil. Perante as autoridades brasileiras expressei minha
esperança de que o banimento tenha encontrado seu fim com
a morte de Dora, e que não permanecesse em vigor apòs
essa tragédia, pois já que não pudera mais
pôr os pés na pátria que amava sobre tudo,
ao menos pudesse sepultar seu corpo destroçado ou suas
cinzas na terra pátria para que sua família, profundamente
castigada, pudesse despedir-se daquilo que tinha restado da filha,
conforme direito e costume humano natural. Por essa argumentação
o pessoal diplomático da representação brasileira
na República Federal de Alemanha e em Berlim Ocidental
demonstrou grande compreensão e também o Ministério
de Assuntos Exteriores em Brasília mostrou -se receptivo,
de modo que o traslado do corpo pôde ocorrer.
Seja-me
permitido de chamar atenção do fato de que naqueles
anos os bispos no Brasil insistiam muito em lembrar o grande número
de pessoas na diáspora. Sei que também o presidente
de Igreja, P. Karl Gottschald, repetidas vezes havia tocado no
assunto dos exilados perante o presidente Geisel que, afinal,
era mesmo membro da Igreja Evangélica de Confissão
Luterana (IECLB).
Naturalmente
também os amigos políticos se empenhavam por uma
anistia ilimitada e pelo retorno dos exilados, mesmo que apenas
raramente estivessem dispostos a dar-Ihes espaço e oportunidade.
Na Europa a International League for Rights and Libertation of
the People lutou pela anistia, entre outros num congresso em Roma.
Mas, antes de tudo, foi mais uma vez a Igreja Cató1ica
que, in loco, assumiu a iniciativa. Já há anos os
bispos haviam destacado com vigor o destino dos exilados:
"A
anistia um direito juridico, quando a condenação
se baseia na injustiça Por isso não deve ser adquirida
individualmente, rebaixando-se. A anistia é uma questão
de justiça e deve ser definida pela lei e pelos tribunais;
não pode ser rogada ou pedida."
Com
essas palavras o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, em São
Paulo, iniciou uma campanha pela irmandade. Ao mesmo tempo a Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) exigia o retorno dos exilados.
Disse Arns, em entrevista ä imprensa: "Desde os primórdios
da história a maior injustiça que se tem feito a
uma pessoa é deixá-la sem pátria. Brasileiro
nenhum deve sossegar até que o governo esclareça
sua posição e assuma a tarefa de estar á
disposição de todos os brasileiros."
Como
apoio ao empenho por uma anistia dos exilados, no Rio de Janeiro
eu havia publicado na Tribuna da Imprensa do dia 11 de setembro
de 1978 um apelo:
"Chega
de exilio! 0 Brasil hoje está a par da situação
amarga de milhares de compatriotas que vivem na diáspora
européia. 0 mundo inteiro apóia o seu retorno urgente
ao pais que tanto amam, e que nestes longos anos nunca desonraram;
muito ao contrário, guardaram em seus corações
como valor mais precioso, embora a conjuntura política
Ihes tenha negado o direito de viver, trabalhar ou estudar em
seu país tranqüilamente, sem medo de sofrer toda espécie
de repressão e perseguição. Parece-me que
chegou a hora em que se deve falar seriamente das vitimas daquelas
confusões políticas na América Latina, e
dum a juventude que foi traída, duma geração
inteira que foi marcada pelos desumanos; de tantos jovens que
foram sistematicamente destruídos por cidadãos desonestos,
os quais significam uma vergonha para este grande povo brasileiro.
É hora de falar do grande idealismo da juventude de 1968
como exemplo duma geração iludida, e como exemplo
da humilhação que sofreu a maravilhosa juventude
acadêmica do Brasil. É de chorar mesmo, quando se
começa a meditar sobre isso. Considero um dever falar disso,
pois assisti de perto o que havia acontecido com essa juventude.
Fui testemunha involuntária das crueldades que haviam sofrido
muitos dos exilados brasileiros em sua pátria antes de
chegarem aqui, na Alemanha. Recordo-me da historia horrorosa que
me contou um rapaz que, no decorrer do ano de 1968, era procurado
pela Polícia ... Fala-se oficialmente em 127 exilados,
trocados há cerca de dez anos por embaixadores seqüestrados.
São os assim chamados 'banidos'. Seriam esses os únicos
exilados? Disputa-se o número exato da diáspora
brasileira estipulado pela Comissão de Justiça e
Paz, que tem em mãos uma lista de dez mil exilados. Será
que os governantes não sabem que já entre 1964 e
1968, até o começo da era Médici, o Brasil
'exportou' centenas de professores e intelectuais de nome reconhecido?
Um desses ilustres professores foi o senhor Paulo Freire, atualmente
colaborador do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra. E quanta
gente sem repercussão internacional, quantos estudantes
seguiram nos anos de 1968 até 1972 e, em menor escala,
nos anos seguintes até o ano de 1976? Está na hora
de abrir as portas para essa elite da nação, pessoal
de altas qualificações morais, cívicas, políticas,
éticas, profissionais e científicas. Creio que o
Brasil até precisa dessa gente amadurecida pelas amarguras
do exilio a fim de alcançar seus objetivos nos planos social,
economico e político.
Na
ocasião do Ecumenical Meeting da Obra Ecumênica em
3 de junho de 1976 muito magoado nós nos lembramos da companheira
de estudos. Num comunicado oficial eu tinha escrito: A Obra
Ecumênica lamenta o falecimento de sua bolsista Maria Auxiliadora
Barcellos Lara, que no dia 1 de junho em Berlim pôs fim
a sua vida. Esta morte nos deixa profundamente aflitos. Vemos
na enfermidade psíquica e na morte inesperada da companheira
a derradeira consequência dos maus tratos por ela sofridas
durante a sua prisão no Brasil. A recomendamos às
mãos bondosas de deus, que queira dar a ela a paz que não
encontrou como refugiada no estrangeiro. Depois de olhavamos
retrospectivamente à vida da Maria Auxiliadoras terminamos
o encontro com uma oração perante deus, que escuta
os gritos dos miseráveis: Eterno deus, magoado pelo
desaparecer de Dora procuramos amparo contigo. Tu tens chamado
ela para esta vida e a deste seus dons e suas tarefas; tu nos
conduziste afim de que nos pudessemos tornad amigos dela. Agora
ela desapareceu e nós não a ajudamos na hora de
desespero. Tu a conheces; conheces seu caminho, seus sofrimentos,
sua angustia e sua culpa. Tu também conheces a nossa falha
e tudo em que faltamos perante ela e que a ela ficamos devendo.
Tu conheces seus derradeiros pensamentos, sua saudade e seu desespero
numa situação de impasse sem encontrar saída.
Rogamos-te que deste a ela a paz que não encontrou no desterro.
A recomendamos em tuas mãos.
Em
2 de junho de 1976 recebemos a autorizacao telegráfica
dos pais de Belo Horizonte, Minas Gerais, para a trasladacao do
corpo:
AUTORIZAMOS
VVSS PROMOVER REMOCAO SEU CORPO APOS LIBERACAO AUTORIDADE POLICIAIS.
SOLICITAMOS ENCARECIDAMENTE SEUS ESFORCOS JUNTO GOVERNO ALEMAO
E EMBAIXADA BRASIL EM BONN PARA IMEDIATA TRASLADACAO CORPO SEUS
PERTENCENTES DOCUMENTOS PARA BRASIL.
Numa
carta do dia 16 de julho de 1976 Maria Helena Barcellos Ratton,
a irmã da Dora informou: " O corpo chegou no dia 17
de junho, e foi enterrado na manhã seguinte, na presença
de toda a nossa familia e de inúmeros amigos nossos e da
Dora. Foi uma morte muito sentida por todos que a conheceram.
Mas foi um grande consolo poder enterrá-la aqui, na pátria
que ela amava, junto ao povo pelo qual ela lutou. Antes do enterro
foi celebrada missa e, nessa ocasião, mamãe leu
uma mensagem escrita por ela mesma. Meus pais não tem conhecimento
das verdadeiras condições da morte da Dora. Não
há condições psicológicas para contar-lhes,
no momento, e eles acreditam ter havido um acidente. Para mim
não deixou de ser um terrível acidente. Numa.arta
comovente que recebia dos pais, Waldemar und Clélia, se
disse: A nossa grande esperânça, meu bom, pastor,
era a de estar junto de vocês, por ocasião da entrega
do diploma de médica e nossa filha diria assím:
"Meus pais e Sr. Heinz Dressel aqui está o diploma,
é de vocês."
Eis
o teôr do convite ao Ato Comemorativo:
A
Obra Ecumênica de Estudos profundamente lastima o falecimento
de sua estimada bolsista MARIA AUXILIADORA BARCELLOS LARA. Estamos
dolorosamente comovidos, pois sabemos que a Dora foi gradativamente
destruída, física- e psíquicamente, por aqueles
que, há anos, durante a sua prisão no Brasil, a
maltrataram bárbaramente. Convidamos mui cordialmente os
amigos de Maria Auxiliadora a participarem num Ato de Comemoração
que realizar-se-há no dia 15 de junho de 1976, às
6 horas da tarde, na igreja evangélica de Neu-Westend,
Eichenallee 47, Berlin 19. Bochum, 9 de junho de 1976 - H. Dressel
- Obra Ecumênica de Estudos.
Ato
de Comemoração em memória da falecida bolsista
da Obra Ecumênica, Maria Auxiliadora Barcelos Lara, 15 de
junho de 1976, igreja evangélica de Neu-Westend
1)
Prelúdio (Jesus, meine Zuversicht, nro. 330)
2) Introito e Saudação
3) Hino (Wo Gott der Herr nicht bei uns hält, nro. 193)
Se
Deus não nos fortalecer
na fúria do inimigo,
e a nossa causa defender
na angústia e no perigo,
se o nosso amparo Deus não for,
vencendo o mal e seu furor,
perdidos estaremos.
Não
podem forças e saber
dos homens assustar-nos.
Deus é supremo em Seu poder,
vencendo, há de salvar-nos.
Embora queiram resistir,
Deus Seu caminho há de seguir.
As Suas mãos governam.
4)
Leitura bíblica e Credo
5)
Hino (nro. 193)
Consolo
em abundância dás
sempre aos desamparados,
jamais a porta fecharás
da graça aos angustiados,
diz a razão:"Perdido estou",
porém a cruz regenerou,
Deus, os que Ti esperam.
Fizeste
terra e céu, Senhor,
Deus todo-poderoso,
acende a luz do Teu fulgor
no coração trevoso,
que em fé e amor possa ele arder
e sempre em Ti permanecer.
Que o mundo se revolte!
6)
Alocução P. Dressel e Oração
7)
Outros oradores
8)
Oração e Benção
9)
Pósludio (Wachet auf, ruft uns die Stimme, Nro. 121)
Começamos
este Ato de Comemoração em nome de nosso Senhor
Jesus Cristo.
O
Senhor nos conforta em toda nossa tribulação, para
podermos consolar aos que estiverem em qualquer angústia,
com a consolação com que nós mesmos somos
contemplados por Deus. Porque assím como tomamos parte
nos sofrimentos de Cristo, assím também a nossa
consolação transborda por meio de Cristo.
Me
permitem de saudar-lhes mui cordialmente e de agradecer-lhes por
terem chegados aqui para assistir este Ato de Comemoração
em homenagem à nossa querida Dora. Quero-lhes transmitir
também as saudações do sr. Vowe e dos demais
colaboradores da ÖSW em Bochum. Dr. Vowe muito lamenta por
não poder estar presente, por motivos de outros compromissos
que o levaram para Bonn. Um abraço cordial do amigo bolsista
Sergio Menezes, Paris, com o qual falei esta manhã em Bochum.
Amanhã
o corpo de nossa estimada Maria Auxiliadora Barcellos Lara deve
seguir à sua terra, e o que nos resta aqui é a sua
memória, é a impressão que sua personalidade
tem engravada em nossa alma. Profundamente chocados pela amarga
experiência que todos nós fizemos nestes dias cheios
de tristeza, ouvimos agora as palavras que o apóstolo Paulo
destinava aos cristãos romanos, no oitavo capítulo
de sua carta:
Diante
de tudo isso, que é que podemos dizer? Se Deus está
do nosso lado, quem nos vencerá? Ele não poupou
seu proprio Filho, mas o ofereceu por todos nós! Se ele
nos deu seu Filho, será que não nós dará
também de graça todas as coisas? Quem acusará
o povo escolhido de Deus? É o proprio Deus quem declara
que eles não têm culpa. Poderá alguém
condená-los? Foi Cristo quem morreu, ou melhor, quem foi
ressucitado. Então, quem pode nos separar do amor de Cristo?
Serão os sofrimentos, as dificuldades, a perseguição,
a fome, a pobreza, o perigo, ou a morte? Na verdade dizem as velhas
escrituras, que estamos em perigo de morte o dia todo, que somos
tratados como ovelhas que vão para o matadouro. Mas, em
tudo isto temos a vitória, por meio daquele que nos amou!
Porque eu estou bem certo de que nada pode nos separar do amor
de Deus: nem a morte nem a vida; nem governos nem outros poderes;
nem o presente nem o futuro; nem nada no mundo. Em todo o universo
não há nada que pode nos separar do amor de Deus,
que é nosso por meio de Jesus Cristo nosso Senhor.!
Creio
em Jesus Cristo
cuja vida era um exemplo
duma existência verdadeiramente humana.
Ele fez a experiência, na própria vida dele,
como uma pessoa pode ser maltratada
pelos próprio homens.
Ele mostrou como se pode lidar com outros
até ao ponto do sacrifício da própria vida.
Creio
em Jesus
que me dá testemunho do seu amor
através de suas palavras e de seus atos,
pelo testemunho e pela solidariedade
dos membros da comunidade em que vivo.
Ele me livra de minha culpa
e do medo dos acontecimentos
que possam surgir em minha vida ou na hora da morte.
Creio
em Jesus
que me dá ânimo de força
para arriscar minha vida,
que me encarrega com a tarefa
de guiar outros ele,
que me dá apoio
afim de que eu possa amar
os outros como a mim mesmo,
assim honrando a Deus.
Ele exige de mim
o sacrifício de meu tempo,
de meus dons, de meu dinheiro,
e espera que eu emprego para outros
tanta fantasia e tanto entusiasmo
como para mim mesmo.
A
Obra Ecumênica de Estudos profundamente lastima o falecimento
de sua bolsista Maria Auxiliadora Barcellos Lara.
Desde
o mês de fevereiro em tratamento médico, no dia 1
de junho, logo após ter consultado seu médico, ela
resolveu pôr fim a sua vida.
Para
a polícia e para a estatística a morte da Dora consta
como um caso evidente de suicídio. Em verdade, a responsabilidade
por este falecimento cabe a aqueles que, há 7 anos, na
prisão no Brasil, a têm submetido às mais
cruéis torturas. A recente enfermidade da Dora, foi sem
dúvida alguma o resultado dos tormentos físicos
e psíquicos, os quais a então moça de 25
anos teve de aguentar durante sua prisão de 2 anos no Brasil,
tormentos que a levaram à margem da alienação
mental ou até mais além. Muitos morreram durante
os atos da tortura, outros faleceram devido a suas consequências
na prisão. Maria Auxiliadora morreu sete anos depois.
Maria
Auxiliadora nasceu no dia 25 de março de 1945 em Antonio
Dias no Estado de Minas Gerais, onde seu pai trabalhava como agrimensor.
Sua profissão o levou à regiões as mais diversas,
seja no Estado de São Paulo, em Goiás ou no Estado
do Rio de Janeiro. A família - Dora tem duas irmãs
e um irmão - era obrigada a sempre acompanhar o pai. Para
os filhos isto significou que sempre tiveram de frequentar outras
escolas e séries escolares, pois, nos anos de 50 ainda
não havia o sistema homogêneo de educação
primária no Brasil.
Os
antepassados de Dora chegaram ao Brasil provenientes da Itália,
de Portugal, da Inglaterra e inclusive da África. Em Belo
Horizonte, Dora estudou no Colégio Nossa Senhora de Fátima.
Um dos seus avós havia ajudado a organizar uma escolinha
num bairro pobre. Também a Dora, com 14 anos, junto com
o seu irmão, lecionava numa escola de favela durante um
ano. Frente à miséria dos pobres da favela, imigrantes
de zonas rurais às margens da Capital do Estado, na alma
de Dora pela primeira vez surgiu a idéia de estudar medicina.
Como aluna do curso primário ela sonhava de, mais tarde,
tornar-se missionária. Quando moça, ela pensava
em servir como médica numa das missões no próprio
Brasil ou no estrangeiro. Em 1965 ela começou a estudar
Medicina na Universidade Federal de Minas Gerais.
Durante
o curso de Medicina, ela começou a perceber a miséria
que a cercava, inclusive no terminal de vida, na sala de anatomia,
onde ela tinha que preparar cadáveres que pareciam pertencer
a sexagenários, mas em realidade pertenciam a trintenários,
muitos deles falecidos por subnutrição, ou, em última
análise, de pobreza.
Nos
hospitais onde Dora serviu, havia mais clientes que leitos. Numa
Clínica de Psiquiatria, onde Dora trabalhou como estudante,
havia 80 clientes em dormitórios planejados para 15 pessoas.
Faltava alimentação adequada. Submetia-se todos
os doentes indiscriminadamente ao penoso processo do choque elétrico.
Os doentes eram tratados mais como números do que como
seres humanos.
Com
tudo isto a Dora se rebelou.
Em
1968, ela fez parte do movimento estudantil. No Diretório
Acadêmico da Faculdade de Medicina exerceu o cargo de secretária.
Naquele
tempo - educada num catolicismo tradicional - ela chegou a interessar-se
pelos livros de Sartre ou de Garaudy, adotando como sua crença
filosófica o existencialismo.
Em
1968 Dora aceitou a ideologia marxista-leninista, admirando como
grandes exemplos personalidades como Ché Guevara e Carlos
Marighela. Havia bastante influência nos pensamentos de
Maria Auxiliadora das teorias do jornalista francês, Regis
Debray, que, na Bolívia, havia acompanhado Ché Guevara
até a sua derrota. O último livro de Debray apareceu
sob o título: "A crítica das armas." É
lamentável que tal crítica veio tarde demais para
a geração estudantil dos anos de 1968 e 1969. Esta
geração de idealistas tornou-se objeto da mais severa
repressão governamental. Dora é uma das vítimas.
Foi presa no mês de janeiro de 1969.
Depois
de dois anos como prisoneira política, Dora foi libertada,
junto com outros 69 companheiros, em troca do embaixador suiço,
Giovanni Enrique Bucher. En Chile, onde recebeu asilo, ela continuou
com o seus estudos. Em consequência do golpe do dia 11 de
setembro de 1973, ela buscou asilo na Embaixada Mexicana. Via
México e Bélgica ela chegou à Alemanha no
dia 10 de fevereiro de 1974. Naquele tempo cheguei a conhecê-la
na casa dos nossos amigos Heberle, em Colônia.
Desde
o dia 1 de março do mesmo ano ela - junto com outros refugiados
provenientes de Chile - era bolsista da Obra Ecumênica de
Estudos (ÖSW). Entre abril e setembro ela conviveu conosco
no campus de Obra Ecumênica de Estudos. Logo após
a sua chegada em Colônia pediu asilo político, que
até o presente momento não lhe foi concedido.
Durante
a Copa do Mundo, em junho de 1974, junto com outros refugiados,
ela foi obrigada a apresentar-se no posto policial do Uni-Center
em Bochum, frequentemente 3 vezes por dia.
No
mês de outubro, Dora matriculou-se na Universidade Livre
dessa cidade. Em plenos preparativos ao exame estadual, a Dora
ficou seriamente enferma e por isso hospitalizou-se por algum
tempo. Depois continuou o tratamento como paciente ambulante.
No dia 1 de junho ela partiu desta vida.
Os
pais e parentes de nossa estimada amiga Dora pediram encarecidamente
pela trasladação do corpo ao Brasil, de onde ela,
por um decreto do presidente Médici, fora banida por tempo
de vida. Terminou este prazo com a sua morte, e os pais vão
receber o que ficou e entregar o corpo à terra brasileira.
Fiquemos
em silêncio agora em memória de Maria Auxiliadora
e na oração perante Deus que ouve o clamor dos oprimidos:
Senhor,
nosso Deus, profundamente entristecidos pelo súbito desaparecimento
de nossa querida Dora procuramos amparo junto a Ti. Tu a chamaste
à vida e lhe deste dons, talentos e objetivos; Tu nos deste
o privilégio de chegar a conhecê-la. Ela agora nos
deixou atrás, e nós estivemos ausentes na hora de
seu desespero. Tu a conheces: Tu conheces seu caminho, suas dores,
sua angústia e sua culpa. Tu também sabes em que
nós falhamos e o que ficamos devendo a ela. Tu conheces
seus últimos pensamentos, sua saudade e sua situação
de impasse. Rogamos-te: concede-lhe a paz que ela não encontrou
no estrangeiro. A recomendamos em tuas mãos. Amém.
Deus
Criador e Autor da vida, que entregues a nós este mundo
para que juntos possamos compartilhar o que Tu criaste; Deus de
amor, que através de Jesus Christo compartilhas nossos
sofrimentos; Deus da esperança, cujo espírito ilumina
e dá poder e confiança nas taréfas que Tu
nos tens dado: Para que em meio de situações quase
insuportáveis possamos ainda nos congregar e ouvir sua
palavra de apoio e conforto, oremos ao Senhor. Para que se crie
uma comunidade tal que nos inspire, que nos mantenha juntos a
nossos irmãos e irmãs em todas as partes do mundo,
oremos ao Senhor. Para que os pobres saibam se reunir na defesa
de seus direitos, oremos ao Senhor. Para que lutemos sem esmorecimento
contra o mal e a opressão, que empregemos a nossa liberdade
em favor da justiça entre os homens e nações,
oremos ao Senhor. Para que todos que sofrem violencia das injusticias
humanas encontrem em Jesus forças para continuar sua luta
pela justiça e pelos direitos humanos, oremos ao Senhor.
Sem Ti não teremos poder. Portanto oramos em conjunto:
Pai
nosso que estás nos céus, santificado seja o teu
nome, venha a nós o teu reino, seja feita a tua vontade
assim na terra como no céu, o pão nosso de cada
dia nos dá hoje, e perdoa-nos as nossas dividas assim como
nós perdoamos aos nossos devedores, e não nos deixes
cair em tentação, mas livra-nos do mal, pois teu
é o reino e o poder e a glória para sempre, Amém.
O
Senhor nos abençõe e nos guarde,
o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre nós
e tenha misericórdia de nós,
o Senhor sobre nós levante o seu rosto
e nos dê a paz.
Nuremberg
agosto de 1999